Eu sempre fui uma mistura de meio pilhada com meio dispersa. Me cobrava muito, mas em momentos em que uma maioria se encontrava focada, eu estava com a cabeça em Marte.

Sempre morei no interior, e meu sonho desde que entendo por gente é morar em São Paulo. Todo fim de ano eu ia para lá, passava uns dias, e cada ano que passava a vontade de ficar lá era maior. Aquela aceleração ao extremo, a vida não parar nunca e o movimento ser sempre contínuo me encantava.

No último ano eu fui morar em Salvador e virei escrava da rotina. Vivia correndo, mal apreciava as coisas, comia por obrigação, tinha uma (bomba) relógio na cabeça sempre me ditando que o tempo passava, escorregava, não voltava e minha produção tinha que acompanhar isso.

No mês passado eu vi minha vida por um fio e decidi dar um basta. Joguei todas as minha obrigações para o ar, viajei sem data para voltar, passei uns dias no litoral e enfim voltei para o interior. Ontem eu me peguei engolindo um açaí de qualquer jeito e correndo na rua para um compromisso — que eu não estava atrasada e não tinha necessidade nenhuma de chegar mais cedo.

Às vezes eu penso: pra quê? Correr para estudar, para formar, para trabalhar, para juntar um dinheiro e mal apreciar a praia. Correr tanto que vê o mal diário e acha paisagem. Não apreciar o gosto do café porque o importante é estar disposto. Não apreciar a paisagem porque é mais fácil registrar no celular e ir embora. Eu costumava me irritar com pessoas que andam devagar na rua, quem parece estar passeando em pleno centro, quem não deixa a esquerda da escada rolante livre. Quem tá sempre pilhado e acelerado e apressado e urgente não entende quem vive a vida leve. Saibamos apreciar a lentidão alheia e a calma que a vida pode nos proporcionar. Tanta doença que a gente se mete por causa disso. Tanto medicamento que a gente toma. E às vezes a gente só precisa ‘take it easy and slow down’. Só mesmo.

Eu ando escrevendo menos porque estou extremamente entretida com a fotografia e às vezes começo um texto e perco o fio da meada por ser dispersa. Aos poucos eu volto. Grata por todas as palavras amigas que já recebi por aqui.