O caos

Os livros estão jogados pelo chão. Não há mais espaço nas prateleiras. Os remédios estão em quase todos os móveis da casa. Não por falta de espaço, mas por pura preguiça de colocá-los na gaveta. As roupas estão em sacos e mochilas. Foi a falta de tempo e disposição de organizá-las dentro do guarda-roupa depois que havia chegado de viagem. Tudo parecia um tanto quanto deslocado. Na escrivaninha, os livros didáticos se misturavam com os de literatura, com papéis inúteis, post-its, canetas e marca-textos, pen drive, bilhetes que ela não fazia ideia de quem tivesse mandado.

Ela já não tinha o discernimento para dizer se seu apartamento estava uma bagunça, a sua vida estava uma bagunça ou se ela era a própria bagunça. De fato ela sabia que não estava na Terra. Sua cabeça passeava pelos demais oito planetas do sistema e adentrava também seu planeta interno particular. Eram milhares de pensamentos. Dezenas de sonhos. Algumas poucas vontades.E todas as suas desordens externas e internas convergiam em um ponto escuro e profundo em que ela se perdia de si. Esse ponto era o caos.

Perdida sem estar. Sofrendo sem razão. Angústia sem remetente. Aquela desordem, aquele caos a engolia. Sentia sua vida como uma carta sem destinatário. O sentimento que havia dentro dela ela esquisito, vinha de lugar nenhum e não existia explicação lógica. Ela olhava ao redor e não sabia se organizava aquele lugar, ou primeiro organizava a si mesma. Ela sabia que deveria começar, mesmo não sabendo por onde. Abriu um livro de Leminski em uma página qualquer a fim de distrair-se e sentiu-se compreendida nos versos aleatórios. Por fim, começou pela parte mais fácil. Empilhou os livros, guardou os papéis, tirou as roupas amassadas das mochilas. “Quem sabe se organizando o apartamento aos poucos, minha vida também entra em ordem? Quem sabe se a bagunça palpável sumir, o caos de minh’alma também se dissolve?” — ela pensava. Quem sabe.