Dos filhos deste solo és mãe hostil

William Blake, The judgment of Solomon, c. 1799–1800

Dentre os registros do reinado de Salomão conta-se a história de duas prostitutas grávidas que dividiam uma casa e dão à luz na mesma semana. Por descuido, uma delas mata seu filho durante a noite ao dormir sobre ele. Quando percebe o que fez, ela troca os bebês enquanto a outra dorme. As mulheres, então, passam a brigar pela legitimidade da maternidade sobre a criança viva e levam a causa ao rei, que ensaia partir a criança ao meio com uma espada para que cada uma tenha sua metade. Pela indiferença da mãe falsa o rei percebe a verdadeira, que recebe seu filho vivo de volta. Fosse esse o caso do Brasil e, quem sabe, a verdadeira mãe da corrupção seria punida. Mas aqui não há mães ciumentas. Há apenas um “toma que o filho é teu” de todos os lados, apesar de todas estarem sob o mesmo teto. O que fica? Fica a criança partida ao meio enquanto os moralistas discutem diante da espada que fatalmente nos separará.

31 de agosto de 2016.

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