Às vezes eu escrevo.

E às vezes eu só quero escrever.

Tento fazer algo com o monte de palavras que me vêm à cabeça o tempo todo. Começo um texto, seja na tela do computador ou na página em branco. Ouço o som de grafite riscando papel ou de teclas batendo ritmadas num teclado. Olho, de quando em quando, para tudo que já foi escrito e sinto um pouco de orgulho e um pouco de desespero. “Ainda tenho muito a escrever”, penso, ainda que não saiba se é verdade. Às vezes queria ter muito a dizer; em outras, só queria mesmo ver o preto de cada letra empurrando o cursor um pouco mais à frente e abaixo.

Às vezes rasgo a página do caderno ou seguro backspace por tanto tempo que volto a digitar mensagens no mIRC.

De volta ao início, refaço o mesmo trajeto. Às vezes eu escrevo como quem se divorcia e casa com alguém rigorosamente igual à pessoa anterior — ainda que ninguém seja rigorosamente igual, nem qualquer texto seja cópia carbono de outro. Prossigo, retorno, assisto. Raramente sinto estar ali como as pessoas dizem sentir. Estou separado, flutuando num espaço que nem é meu corpo, nem é o texto. É algo com as minhas mãos, com meus dedos, livres da vontade de interromper o que estiverem fazendo para puxar um cigarro da carteira. Quem sabe fumar me deixasse mais satisfeito com o que escrevo. Quem sabe fumar seja o que me faz desistir tão fácil de escrever.

O computador emite um chiado qualquer. Os carros que passam pela rua também. Só os percebo nas pausas entre parágrafos ou enquanto busco uma palavra particularmente obtusa na memória. Invariavelmente falho ou, nas raríssimas ocasiões em que acho o que procurava, sinto que no fim das contas não era bem a palavra certa. Procuro-as tanto que talvez jamais sejam suficientes. Tento tantas vezes, fracasso tantas vezes, sinto-me incapaz com tamanha frequência e intensidade que é possível que realmente não seja capaz de juntar as palavras que quero da maneira que preciso. É possível que devesse parar de escrever.

Giro a roda do mouse. Lá estão parágrafos que jamais revisarei, encadeados na formatação elegante do editor de texto. Organizados e limpinhos, prontos para serem lidos. Talvez sejam. Talvez estes sejam uma nova tentativa de formar um ritmo, me esforçar, diminuir o tamanho infinito de tudo que ainda quero escrever. Parágrafos que numa situação normal jamais seriam escritos — publicados, então?, jamais — , mas que, com sorte, servirão como fundação para o que vem pela frente. É difícil voltar a escrever.

Mas às vezes eu tento.