A gente ainda vai se encontrar.

Por acaso, quase como se a vida fosse mesmo mágica e todas as coisas convergissem rumo àquela verdade absoluta que só existe enquanto dura a juventude. Pode ser que a gente nem seja mais jovem; pode ser que nem exista magia.

Os olhares vão se cruzar enquanto matamos as saudades de passar pelo gramado daquela rua sem saída no bairro. Serão anos sem que tenhamos passado por ali, mas nossos pés vão andar sozinhos cidade afora só para que eu te veja com a mesma cara de perdida. Vou te abraçar, a gente senta encostado no muro. Falo de como tudo mudou, menos nossa esquina.

Ou então isso acontece nas prateleiras dos importados – as baixinhas, sabe? – daquele mercado caro perto de onde eu morava. Nesse dia a gente vai estar com vontade de comer um chocolate diferente, um daqueles que quase dá dó de abrir. Eu no lado errado, passeando entre as ilhas. Você sabendo exatamente a que veio: uma mulher com uma missão. Vamos terminar as compras e conversar sobre como é inacreditável a coincidência.

Talvez seja enquanto tomamos uma cerveja naquele prédio a que a gente sempre ia junto. Não que seja um costume: tem pelo menos dez anos que nem piso aqui, mas é bom ver que você continua bonita.

Vou matar minhas saudades de assistir a um jogo de futebol no estádio, mesmo que tenha que amargar a torcida visitante. Já nem ameaço mais o bandeirinha. No intervalo vou lembrar de como era gostoso fumar um cigarro sozinho num canto da arquibancada, olhar para o outro lado da grade e te ver olhando em minha direção. Não sei se você me viu também. A saída é separada e eu te perdi na multidão.

A gente ainda vai se trombar na rua e numa loucura dessas da vida estamos ouvindo a mesma música, indo na mesma direção. Prédios vizinhos. Uma vez achei que te vi no banco, mas estava apressado e nem devia ser você de verdade. Você não ia sair do país? Lembra daquela viagem que deu errado em cima da hora? Você nunca terminou meu livro?

Um dia a gente ainda vai se encontrar. Um dia a gente vai se encontrar.

Mas aí já não sou mais eu. E aí já não é mais você.