Alma imortal

Já se iam dois anos desde que finalmente fizera a última reclamação em vida. Sentado à varanda da casa que por algum motivo prendera sua alma imortal, o fantasma do jovem Otávio Pereira apreciava a tarde modorrenta e úmida que atiçava mosquitos e perturbava quem passasse pela rua General Ivo Pantaleão na altura do mil cento e doze.

A morte inesperada abalara a família e chocara conhecidos: vítima de um mal súbito depois do almoço de domingo, Otávio deixara como lembrança derradeira suas opiniões sobre o excesso de cheiro-verde na carne de panela preparada pela mãe. Durante o velório, entretanto, o irmão mencionaria seu bom humor matinal e disposição para entrar em discussões a qualquer momento.

As semanas seguintes foram produtivas: desencarnado e confuso, o defunto rondava pelos quartos e corredores sem qualquer pudor. Demorou pouco para que descobrisse ser capaz de ativar interruptores, ligar eletrodomésticos e até acender velas caso estivesse especialmente inspirado. Infernizou por puro tédio a vida de sua família e descobriu que o período de respeito pelos mortos era bastante curto: vinte e dois dias após sua morte surgiam as primeiras piadas e comentários tangencialmente maldosos. Durante essas sessões tentava controlar os ânimos com algumas assombrações efusivas, mas era incapaz de interferir com o mundo dos vivos enquanto evocavam sua memória. Frustrado, cruzava os braços e sentava no chão como que num protesto individual e inútil.

Passava as madrugadas na internet, aproveitando o computador permanentemente ligado da mãe. Assistia repetidas vezes um vídeo de si mesmo armazenado acidentalmente na área de trabalho, recordando sua face e voz terrenas. Jamais sentiu-se triste – o pior era mesmo a irritação quando descobria que os amigos e namoradas seguiam em frente com suas vidas, eventualmente apagando as fotos em grupo nas redes sociais e ocupando o espaço criado pelo luto com pessoas novas.

O primeiro aniversário de sua morte gerou comoção aquém da esperada: seus pais choraram durante uma curta lembrança durante a novela das sete, e o irmão estava muito ocupado com o trabalho naquela semana. Sentiu-se sozinho e desanimado, mas não era de dar atenção a esse tipo de coisa. Diminuiu gradualmente as interações, limitando-se eventualmente a roubar cigarros de maços quase vazios e secar pontas de canetas bic.

Sentado à varanda da casa que por algum motivo prendera sua alma imortal, o fantasma do jovem Otávio Pereira ouviu mãe e irmão conversando no escritório.

– Posso formatar então, mãe?

– Pode, só faz essa tralha ficar rápida de novo.

– Certeza que não preciso salvar nada?

– Não, pode apagar, tenho tudo salvo num pendrive.

Otávio ainda pode suspirar resignado antes de desaparecer completamente da face da terra.