Ar condicionado

29 de outubro

Foi meu primeiro dia na empresa. Passei uns anos desempregado e andava com medo de nunca mais conseguir me acostumar à rotina de firma, mas no fim das contas isso é sempre mais nervosismo que preocupação verdadeira. Nosso espaço é pequeno mas a Renata falou uma seis vezes só hoje que vamos ampliar assim que expandirmos as operações: por enquanto — e isso ela repetiu incansavelmente — a gente precisa ter paciência e levar os esbarrões pelo corredor na esportiva.

Foi assim que conheci o Bruno, aliás. Sujeito bacana, me chamou pro happy hour dos vizinhos de porta na sexta e me explicou como funciona a validação de estacionamento. Nenhum deles tem carro, mas eu moro meio longe e acho que não é má ideia deixar de encarar ônibus todo dia.

30 de outubro

Minha apresentação oficial. Já tinha visto todo mundo, mas foi a primeira vez que disse meu nome e contei algo sobre mim pros colegas. Acho que ficaram meio desconfiados quando falei que meu único bicho de estimação foi uma cobra que escondi numa caixa de sapato quando era criança; era pra ser brincadeira, mas eu também não sou o cara mais engraçado do mundo. Vou me concentrar em montar planilhas.

Já tive também a primeira ideia errada, diga-se. Fiquei de conversa com a Júlia, do cubículo mais próximo à sala da chefe, e tenho certeza absoluta que se um dia der a sorte de encontrá-la fora do escritório vou dar uns beijos. Ela é bem meu número, adoro mulher comprida.

3 de novembro

A máquina de xerox pifou no meio de uma impressão e a Júlia jogou um pacote de 500 folhas de chamequinho no meu computador. Foi demitida.

Falei com o Bruno e ele acha que chamá-la pra sair é uma boa ideia, pelo menos não fica na tristeza. Vou fazer isso.

4 de novembro

Escutar o Bruno foi mancada.

10 de novembro

Percebi que nem falei do resto dos colegas. O Bruno é um dos representantes de vendas e é parceiro da Lia, substituta da Júlia que eu definitivamente não vou chamar pra sair em momento algum; Renata é nossa chefe e nossa RH, o que certamente não vai dar certo no futuro próximo mas que também não é meu problema; cuidando do TI e dando esporro em todo mundo que tenta burlar o firewall tem o Humberto; Ricardo é nosso contador e eu sou o burocrata que tenta organizar tudo de um jeito mais ou menos compreensível. É bastante coisa pra vender aquecedor, mas acho que tem todo um plano por trás disso. Posso estar sendo bem inocente, mas a Renata soa bem confiante.

13 de novembro

Pela primeira vez consegui arrumar meus horários e fui ao happy hour dos vizinhos de andar. Ficaram todos me olhando com cara de susto e não falaram mais que meia dúzia de palavras o (pouco) tempo que fiquei no bar. Tive certeza que um baixinho suava frio e tremia toda vez que eu tentava fazer um comentário pra quebrar o gelo, mas ele negou desconforto de pés juntos e pediu desculpas.

O Bruno anda me saindo um problema. Nem validar o estacionamento eu consegui.

21 de novembro

Levei meu primeiro esporro hoje. Primeiro irritei todo mundo falando que sonhei com uma aranha enorme: disseram que eu era ridículo e que ambiente profissional não era pra ficar falando dessas coisas, o que eu achei bem chato porque não tem uma semana que o Humberto descreveu como seria um corte bovino em seres humanos. Achei que ele fosse daqueles veganos chatos, mas veio frango na marmita do dia seguinte e ele comeu sem problemas.

Aí, não contente, pedi para aumentarem um pouco o ar condicionado que eu tava morrendo de calor. A Renata ouviu de algum jeito, veio batendo os pés e mandou alguma história de “casa de ferreiro, espeto de pau”. Disse que se eu quisesse ficar congelando feito aquela gentinha (nem ideia de a quem ela se referiu) podia procurar outro emprego.

Foi a primeira vez que pensei em ser demitido por passar calor. Amanhã vou comprar um ventiladorzinho portátil.

24 de novembro

O maluco nervoso da sala à frente pegou elevador comigo hoje. Digo maluco porque o cara é realmente meio biruta, ficou olhando pro teto e mexendo os lábios sozinho sem falar nada. Quando chegamos no oitavo andar ele não me olha na cara e manda um “vai embora logo”? Comentei na firma e todo mundo ficou meio indignado com a falta de educação. Renata falou inclusive que comentaria com o chefe dele, mas acho melhor deixar pra lá; não quero ninguém se complicando por minha causa.

30 de novembro

Acho que falei demais e o cara foi demitido. Tou me sentindo bem babaca. Lia comentou que eu planejei a sangue frio e só piorou as coisas pra minha consciência; ela pareceu achar que tava me elogiando e eu não entendi direito qual é a dela.

07 de dezembro

Todo mundo anda meio pilhado na firma. Não sei se são as contas de fim de ano que não fecham ou o volume de trabalho aumentado por causa do calor do verão, mas as poucas vezes que ouço alguém abrindo a boca pra algo são sempre uns xingamentos baixinhos e impossíveis de entender. Decoro profissional é um treco esquisito.

Pelo visto mais gente foi demitida na outra empresa. Duas meninas que andavam sempre juntas nunca mais deram as caras e o estagiário deu um showzinho bem triste hoje mais cedo: saiu correndo e falando que tinham mentido pra ele, que não ia fazer parte daquele teatro e não mais o quê. Vou botar na conta dos trinta e sete graus no termômetro de rua e ficar na minha, ainda que queira entender quem eu tenho que subornar pra conseguir parar o carro neste prédio.

12 de dezembro

Renata me chamou na sala de reuniões no fim da tarde. Até hoje não tinha entrado ali, apesar de achar um desperdício besta quando todo mundo trabalha amontoado ali nos cubículos; de qualquer modo, levantei certo de que seria despedido e comecei a pensar que passaria o pior natal da minha vida este ano.

Não era nada disso, por sorte. Ela me elogiou e falou que eu andava excedendo expectativas; que sabia do nível de cansaço e estresse de todo mundo e que eu era uma surpresa para todos, nem parecia ter vindo “de fora”. Perguntei o que ela quis dizer com isso mas não entendi muito bem a resposta. Lia chegou depois de mim e não foi chamada pra conversar — talvez ela acabe sendo demitida, coitada.

17 de dezembro

Trabalhamos em pleno domingo. Perguntei pro Ricardo se achava que ia rolar folgar no dia 24 e ele só deu risada. Acho melhor avisar meus pais que só vou chegar na hora da ceia.

18 de dezembro

O escritório da frente fechou. Perguntei pro pessoal e eles deram de ombros, afundados nos telefones e computadores. Não ando fazendo muita coisa e os números estão ficando cada vez mais esquisitos. Semana passada não fizemos nenhuma venda até as cinco da tarde de domingo, e aí fechamos um pacote que alcançou direitinho a meta que a Renata estabeleceu. Eu acelerei o contrato e passei hoje o dia inteiro procurando um CNPJ que não constava em lugar nenhum. Precisei ligar pro velhinho da junta comercial pra dar um jeito nessa nhaca.

Ando com dificuldades de me concentrar. A sala de reuniões tá com um barulho alto e abafado; acho que Renata mandou instalar um ar condicionado de natal pra gente.

23 de dezembro

Fomos liberados mais cedo hoje, sei lá por que cargas d’água. Vamos ter que trabalhar amanhã mesmo, mas vai rolar uma confraternização no fim do expediente e o traje é casual. Minha mãe não se conforma comigo trabalhando em feriado e ela tá bem certa. Vou pedir as contas, mesmo que janeiro seja apertado de grana.

24 de dezembro

Dei sorte de trazer este caderno comigo, porque pelo visto vou demorar um pouco até voltar pra casa.

Cheguei meio atrasado na firma e não encontrei uma viva alma. Bem puto da cara, resolvi ver se tinha algo na agenda mas a luz não ligava na sala dos cubículos. A sala de reuniões tava fazendo um barulho ensurdecedor e eu achei uma ótima ideia ir até lá, se fosse pra esperar que esperasse no ar condicionado e num canto espaçoso.

O que não dava pra saber é que não era bem um ar condicionado, e sim um monte de congeladores encostados na parede. Neles, um monte de pacotes refrigerados e marcados com nome de gente: demorei um pouquinho pra me desesperar, mas quando li “Júlia” não teve muito como me aguentar e descobri em pouco tempo que a porta trancava sozinha. Fucei mais um pouco pra ter certeza e o maluco nervoso, o estagiário e as meninas que andavam juntas também estavam no meio do balcão de frios do inferno.

Sem saber se chorava ou se gritava, ouvi uma comoção na rua. Tinha alguma coisa muito grande descendo do céu. Parecia uma montanha com um megafone: “Nós somos uma força de ocupação: rendam-se como escravos e não serão eliminados como alimento”.

Renata escolheu essa hora pra entrar na sala de reuniões, e atrás dela vieram Bruno, Lia, Ricardo e Humberto. Falou alguma coisa sobre precisarem de mim como embaixador e que a recusa seria vista como alta traição e punida com cozimento prolongado, mas não dei muita atenção porque enquanto ela discursava todos tiravam as roupas e em seguida escorregavam lentamente para fora das próprias peles, deixando à mostra dentes afiados, olhos amarelos e escamas esverdeadas. Nessa eu desmaiei e acordei aqui, sobrevoando a praça da matriz e rodeado de gente muda me olhando com medo e admiração.

Pensei um pouco e, bem, não devo mais escrever neste diário. Pessoalmente eu dou são as boas-vindas aos nossos senhores reptilianos, que resolveram meus problemas de estacionamento para o resto da vida.