Depois de nós


Muito depois de partirmos, nossa história não será contada.

Os rastros vivos, digitais, físicos do que fizemos desaparecerão com a mesma naturalidade que surgiram; os sons da sua voz e do meu riso jamais serão lembrados numa mesma oração. Para todos os efeitos jamais teremos existido.

As centenas (milhares!) de declarações deixarão nossa memória antes mesmo de termos concluído nossa jornada. As brigas servirão como avisos vagos, sem contexto, do que não devemos nunca fazer. Elas também terão sua utilidade superada, assim como todas as coisas restantes.

Não restará uma única testemunha do que, à época e à sua maneira, fora a mais singela história de amor – incomparável, inatingível por ser nossa, e não há como duas outras pessoas guardarem em seus corações algo maior do que sentíramos.

Livros escolares serão fatalmente incompletos pelo resto dos dias, ignorantes da maior lição de todas. Vestibulares terão uma questão em branco, como se soubessem que falta em suas provas um conhecimento indispensável para o resto da vida dos candidatos. Não saberão dizer qual; não saberão o porquê.

E nada disso importará mais do que importa agora. Depois de nós não restará coisa alguma.

O tempo tem, afinal, a inescapável característica de carregar consigo apenas o que um houve um dia.