Enxurrada

– Você ainda pensa em mim quando chove?

– Que tipo de pergunta é essa? Não para de chover por aqui e a gente já não tem nada há muito tempo.

– Você entendeu. Eu ainda penso na gente quando chove desse jeito. Só queria saber se você lembra.

– Ah. Isso. Não é justa, essa pergunta. É claro que lembro, não dá pra esquecer. Tinha um papo sobre a claridade, sobre o som das libélulas, não tinha?

– É. Eu ainda ligo um monte de sons a você, mesmo depois desses anos todos. Lembro da sua voz ao telefone. Parece bobo, mas quando a gente conversa cara a cara eu demoro um pouco pra me desvencilhar dos chiados e daquela coisa meio robótica das ligações. Isso com certeza é bobo, mas eu morria de vergonha quando a gente se encontrava ao vivo.

– Como assim? A gente vivia junto.

– Pois é, eu também não entendo. Eu tinha quinze anos, não dá pra entender mesmo. Eu me sentia segura falando ao telefone, não precisava olhar nos seus olhos pra saber se o que você me falava era verdade ou mentira.

– Eu não mentia. Não pra você.

– Mentia, sim. É só que ao telefone eu não tinha como descobrir, aí ficava mais fácil ser convencida de que não era enganação.

– Isso me ofende um pouco. Você foi a primeira pessoa de quem eu gostei, sempre disse isso da melhor maneira que conseguia.

– Olha aí. Você não dizia que gostava. Você dizia que amava.

– Eu tenho problemas com essa história de amor no passado. Depois que acaba eu sempre fico confuso.

– Porque você não amava. Eu, sim. Talvez por isso topasse seus discursinhos e gostasse tanto das cartas. Você escrevia como nenhum cara de quinze anos escreve.

– Pena que eu parei. Depois de um tempo você deixa de ser um jovem talento e vira um adulto medíocre.

– Não muda de assunto. Isso ainda é sobre a gente e você não respondeu minha primeira pergunta: você ainda pensa em mim quando chove? Não quero saber se lembra do que eu falava, quero saber se pensa em mim e ponto.

– Hm, tá bem. Penso. Tá feliz?

– Não, claro que não. No que você pensa?

– Penso na simplicidade, nos dias quentes e claros, no som das gotas saraivando o teto, no vapor que saía do concreto seco e quente logo depois que as nuvens abriam. Penso nesse céu acinzentado que vai me seguir até o dia da minha morte. Penso que eu era muito moleque pra querer entender tudo que tava acontecendo.

– Você pensa em si mesmo, então?

– Sim. E não. Pensar em mim mesmo naquela época é pensar em você também. É lembrar de viver grudado em alguém, de ser muito mais bobo do que eu posso ser hoje. Lembro da sua risada histérica, disso eu lembro muito.

– Minha risada não era histérica.

– Era, sim. Ainda é. Você tem problemas sérios pra conter esse tipo de impulso.

– Hmpf. Sabe o que é engraçado?

– Não sendo sua risada, não.

– Larga disso! O que eu quero dizer é que… É engraçado que eu só lembre de um dos nossos beijos.

– Eu também. Pra ser bem sincero, é aquele da chuva, não é?

– Não sei se é o mesmo. Não para de chover desde que a gente nasceu.

– É… Mas pera aí. Tá ouvindo esse barulho?

– Que barulho?

– Esse barulho chato, meio longe. Presta atenção.

– Não… Ei. Tou ouvindo sim. É isso mesmo? Sério?

– É. Olha ali. Uma libélula.


(Publicado originalmente em 6 de março de 2013)

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