Fim (2)

Quando o despertador tocou às sete e meia da manhã e eu levantei querendo estar morto, pulei da cama com tanta vontade que acabei deixando deitada minha carcaça.

Deixando de lado o fato de ter sido o primeiro humano a morrer por acordar cedo na história da raça, demorei uns segundos pra entender o que tinha acontecido. Parei em pé, ainda pelado, e vi meu corpo esfriando lentamente. Ao menos imagino que estivesse esfriando, já que não tinha mais tato. Senti um pouco de dó da namorada, que dormiu acompanhada e acordou sozinha naquele sentido metafísico que a morte me deu licença pra usar. Fiquei meio cabreiro com meu computador, irremediavelmente desbloqueado na sala ao lado, mas não é como se alguém fosse me encher o saco no além-vida. Decidi que seria um fantasma desencanado.

Um desencarnado desencanado. Hah. Um morto muito louco.

Dei umas bandas pelo apartamento pra ver se conseguia assombrar um interruptor ou a descarga do banheiro, mas nada feito. Perdi uns cinco minutos assustando os gatos, que quase enlouqueceram no começo mas foram lentamente ficando apáticos à minha forma etérea como eram apáticos à forma terrena. São uns bichos bem filhos da puta mesmo. Li em algum lugar que o cachorro segue o fantasma do dono pra sempre. Por que eu não podia ter batido o pé e comprado um cachorro? Acho que é o maior arrependimento que levo da vida, sinceramente. Na próxima encarnação não dou esse mole.

De todas as coisas que deixei, só consegui interagir com meu maço de cigarros e meu isqueiro. Acendi um, sentei no beiral da janela grande da sala e assisti o dia começar sem mim. As cores estavam meio lavadas. Queria um café, mas aparentemente a cafeteira era boa demais pra servir um defunto. Ouvi um barulho no quarto. Era a mulher.

Saiu meio grogue, com a camiseta velha roubada da minha porta do armário. Mijou, escovou os dentes, jogou uma água no rosto e voltou pra cama. Agora era só esperar.

Um minuto.

Dois.

Dois e meio…

“AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHH”

Excelente. O grito apavorado, a ligação pro SAMU, a correria até a casa do vizinho mais chegado. Nisso um gato fugiu e ficou preso pra fora o dia inteiro, coitado. Aliás. Coitado nada, que ele ainda tava vivo. Coitado de mim, que morri antes dos 30 e nem usava drogas pra poder dizer que valeu a pena.

Continuei sentado num canto observando o povo se amontoar entre sala e quarto. Meio prédio, uns amigos que moravam perto, acho que até uns curiosos da rua perceberam a comoção e foram ver o que acontecia. Descobri que se apertasse um pescoço a pessoa teria calafrios, e fiz isso sem parar a manhã toda. Aos poucos a multidão dispersou e levaram meu corpo sei lá pra onde. Eu já tinha perdido o interesse, e nem ao velório fui. Não queria ver meus pais chorando, obrigado.

Queria algo novo.

Subi ao telhado e resolvi que ia aproveitar minha pós-vida radicalmente. Me joguei do prédio pra chegar até a calçada e descobri bem rápido que a gente guarda os instintos da vida na morte. Bati no chão tão desesperado e assustado que, quando percebi, tava olhando pra minha própria forma desencarnada ali, inerte, duplamente sem pulso.

As cores lavadas perderam um pouco mais de intensidade. Eu esqueci de um par de coisas. Pensei num cachorro por algum motivo, mas ignorei o motivo. Tinha alguma coisa a ver com um cachorro.

Alguma coisa a ver com um cachorro.

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