Mil perdões

— Ei, tá tudo bem?

— Não.

— Por quê?

— Não sei.

— Como não sabe?, tem que ter algum motivo pra não estar bem.

— Não sei, oras. Não sei qual o motivo, pelo menos.

— Isso não tem sentido nenhum, todo mundo fica mal por alguma coisa.

— Todo mundo menos eu, aparentemente. Não tá tudo bem, mas se você quiser que eu invente um motivo eu invento. Especialmente se você parar de perguntar.

— Que grosseria. Eu só tava me preocupando.

— Eu sei, foi mal.

— Não precisa se desculpar. Eu que insisti.

— Se eu não me desculpo fico com motivo pra não estar bem.

— Mas não precisa, cacete. Tou falando que não precisa.

— Eu não pedi desculpas pra você se sentir melhor. Pedi pra me sentir melhor comigo mesmo, me deixa.

— Só queria entender que vantagem você leva ficando assim.

— Olha, de novo. Eu já pedi desculpas. Não sei o que tem de errado. Não tem nada a ver com você.

— Quando tem grosseria pro meu lado tem a ver comigo sim, não posso nem me preocupar sem levar esporro.

— Talvez porque sua preocupação seja protocolar, né.

— O que você tá querendo dizer?

— Nada. Esquece. Foi mal.

— Agora fala, que palhaçada é essa de protocolar?

— Puta que pariu você, viu.

— Não, puta que pariu você, que não consegue aceitar uma gentileza quando acorda de pá virada.

— Eu não acordei de pá virada. Eu acordei do mesmo jeito que acordo todos os dias mas hoje resolvi falar honestamente que não tá tudo bem e agora tou discutindo sem razão nenhuma porque não te dei a paz de espírito que sempre dou. Na real, vamos voltar atrás.

— Voltar atrás como?

— Tá tudo bem.

— Não tá tudo bem.

— Tá sim, não esquenta.

— Você não vai me falar mesmo?

— Não tenho o que falar.

— Ok, desisto. Quer ficar mal, fique. Não tento mais ajudar, também.

— Desculpa.

— Vai se foder.