O monumento do lago

Do outro lado da planície, além do lago, o monumento está sendo construído. Ele é feito de enormes barras metálicas e de espelhos. O monumento ainda não tem forma, mas será o maior de todo o mundo. O monumento está sendo construído. O monumento sempre esteve em construção.

Meus bisavós foram os primeiros a me contar sobre nosso colosso do lago. Meus bisavós eram um casal de vidraceiros; meus bisavós sempre foram vidraceiros e derreteram areia, e pulverizaram rocha, e deixaram acesas as caldeiras por todas suas vidas. Meus bisavós jamais pararam de criar espelhos.

O monumento já consumiu todos os espelhos de meus avós; não posso mais ver meu reflexo, pois o monumento está lá longe, e também não vejo o monumento, que reflete a planície, que reflete o lago, que toca o céu com suas barras de aço.

Meus avós foram os primeiros a me levar até o monumento. Meus avós foram exploradores e desbravadores, e limparam o terreno para a construção do colosso de nosso povo. A vida inteira araram a terra sem jamais plantar sementes, a vida inteira romperam lenha sem nunca fazer fogo, a vida inteira dedicaram àquele mitológico canteiro de obras. Meus avós jamais saíram da terra devastada, e hoje repousam sob o monumento.
(Que engoliu não só suas vidas e suas terras, mas também o lago e os animais. Engoliu o horizonte, e ataca o céu com suas barras metálicas eternamente em riste.)

Meus pais vieram de longe. Trouxeram consigo o conhecimento de muitos reis e muitos reinos, e ficou a encargo deles desenhar o monumento. Meus pais jamais me deram um nome, pois meu batizado seria a primeira coisa que fariam após o fim dos desenhos. Meus pais dedicaram a vida a um desenho em escala real de nosso colosso à beira do lago; meus pais viveram cento e doze anos; meus pais morreram sem que o monumento fosse assinado.

O monumento compreende toda a história humana e toda a criação divina, e reflete desde a mais secular racionalidade até a própria gaia ciência. O monumento consumiu planície e lago, o monumento atacou o céu, o monumento é feito de espelhos que refletem o sol e queimam florestas distantes.

Eu mesmo resto aqui, incompleto, erigido sobre espelho, aço e terra. Colosso abandonado à beira do mundo e à borda do lago, assisto imóvel meu próprio esquecimento. Ano após ano, década após década, século após século, família após família, pais, avós, bisavós, toda a memória de um povo, a saga incompleta de uma raça, o triunfo de uma espécie.

E o monumento simplesmente se desfaz em

pó.