Jornada

Nosso mundo era plano, Paraíso.

Um disco solto em meio a tudo que existia além, vagando eternamente pelo espaço.

Nosso mundo era pequeno, Paraíso, e conhecíamos cada canto escondido das terras verdes e dos oceanos profundos.

Dávamos nomes às coisas, conhecidas e desconhecidas. Confundiríamos quem fosse se aventurar nas veredas cheias de pegadas nossas, nas margens de rios decoradas pelo nosso riso; mas ninguém jamais se arriscou. Nosso mundo era distante.

Paraíso, você sempre esteve ali. Imóvel e insatisfeita, meu marco zero, minha pedra fundamental. Você restou e você partiu.

E a cada estrada diferente sobre que seus olhos repousaram uma parte do que foi nosso se desfez

e deu lugar a algo novo, coisas cuja beleza jamais fui capaz de compreender e nem me arrisquei a nomear.

Àquela altura, Paraíso, já desconhecia tudo que não fôssemos nós

ou que fosse você, pois meu próprio nome só podia ser pronunciado, em todas suas letras e sons, por seus lábios finos e voz quieta.

A luz dos céus fugia e retornava, e por muito tempo sofri com medo da escuridão. Dei nome à noite, o primeiro que criei sozinho (dei nome também à solidão). Dei nome às estrelas e à lua e aos pontos cardeais.

E restei, Paraíso. E parti.

Em todos os lugares vestígios seus, um fio de cabelo, uma lembrança de sorriso, uma interjeição perdida de seu contexto carregada pelos ventos até mim. Guardei-os pouco a pouco tentando reconstruir minha memória de você sem jamais conseguir.

Abandonei nossas montanhas, nossos rios e nossas praias. Dei nomes certos e errados ao mundo novo que esperava.

Plantei florestas inteiras e as coloquei abaixo. Construí eu mesmo uma embarcação feita de todas as árvores da existência e conquistei léguas e léguas de ondas e sal.

Meu mundo era sem fim e sem nome.

Meu mundo era sem ti.

E por sete mares, Paraíso,

eu procurei sem te encontrar.

Mas se não hoje, não por isso:

o meu destino é navegar.