kit kat

A primeira coisa que eu te disse foi que eu não comia Kit Kat. Você, sempre quando me via, me dava um Kit Kat para me agradar.

Já faz muito tempo que não nos vemos, mas vira e mexe, você aparece. Eu sei que você guarda muito rancor e raiva. Eu abri mão e te perdoei. Por tudo mesmo. E nem foi porquê eu sou uma pessoa melhor, foi só pelo fato que eu preciso de mais energia para arrumar o que você bagunçou.

E rapaz, que bagunça, eim? Eu não entendo direito até hoje como tudo aconteceu. Às vezes eu me pego pensando em como eu fui ignorando os sinais. Como eu deixei nosso primeiro encontro no Hung He passar batido. Você foi rude com o garçon, você levou meu prato que eu mal tinha comido (amidalite, lembra?) para sua casa e no final, dividimos a conta por igual. Você escolheu o Hung He, pois era do lado da sua casa e você tinha um plano de só me comer, que decidiu não colocar em prática pois sua casa estava um nojo e eu era legal demais pra isso.

Suas palavras. “Eu era legal demais pra isso”. Não só para isso. Eu era legal demais para várias coisas. E hoje em dia eu vivo nessa sombra de coisas-que-você-me-fez-acreditar-mas-não-eram-verdades.

Uma delas é que eu estrago a vida de quem eu me aproximo. Lembro do dia que eu tava sentada na janela, fumando um marlboro light e chorando e você chegou em casa rompendo o silêncio e meus pensamentos. Eu fiquei muito feliz em te ver, eu só queria um abraço e ouvir que tudo ia ficar bem. No lugar, você me agarrou pelos braços e começou a gritar “você está estragando a minha vida com seu pessimismo”. Era uma cena normal na verdade: você reclamando do meu pessimismo, você exigindo coisas de mim que certamente eu não podia te dar e lidar. Mas eu tentava. E quanto mais eu tentava me encaixar nesse seu plano de vida, mais eu me machucava.

Fui deixando meus planos de lado. Sim, por você. Não pelo fato de você em si, mas porquê você me fez acreditar que eu não conseguiria nada. Que eu era um estorvo para todo mundo, que a minha família não me amava. Nem meus amigos. Só você fazia o favor de me amar (e ainda deixava bem claro o fardo que era esse amor).

Nessa história mal contada, que eu comprei (pois além de ser uma pessoa, PASME, extremamente good vibes, eu sou ingênua) eu fui deixando de sair. Fui desistindo de viver. E me dói lembrar que no fundo, te dava uma satisfação doentia em ter esse filhote de gato saído de um incêndio do teu lado. Você curtia a história. Você era o herói que estava deixando a vida de lado em prol do bem-estar da namorada.

Corta a cena para o dia que eu fui a pé para a Cabritón. Quando eu passei uma semana SEM PARAR vendo palestras no TED e pesquisando o funcionamento do cérebro e decidi lutar contra o que “eu sentia”. As coisas começaram a caminhar, eu entrei na briga de cabeça e eu tava ganhando. E isso eu me odeio até hoje. Passam-se os dias e eu não consigo me perdoar por isso: enquanto eu melhorava, você foi ficando violento.

Se eu tivesse só percebido, eu teria ido embora talvez. Ou não, eu já tava tão fodida que talvez eu ficaria sim aguentando.

Quando as coisas “saíram do controle” eu percebi que na real, tudo o que você discursava para mim, era você. O problema é que já fazia um ano e oito meses que eu escutava esse discuso “Como a Ciça é uma pessoa desgraçada da cabeça completamente maluca nunca ninguém vai te amar só eu mesmo pois eu sou um homem incrível” e né. Internalizei.

E o problema quando você internaliza algo é que você começa a acreditar e colocar em prática.

Mas fica tranquilo. Eu não te culpo. Eu ainda carrego boa parte de você dentro de mim, pois tem coisas que são mais difíceis mesmo de deixar de lado. E eu sempre procuro te agradecer pois foi uma bosta para ambos, mas por sua causa eu me achei me perdendo. É difícil de explicar e você não vai mais ter a chance de entender. Mas saiba isso: eu to bem. Eu te perdoo. Eu te desejo o melhor. Eu sei que as coisas vão dar certo para você, fica bem aí. E por favor, bem longe de mim.

PS.: Era Twix.