Quem Recolhe os Royalties da Harmonia das Esferas?

da gravação de campo documental à arte sonora digital

1.
EXPRESSAMENTE PROIBIDO

Alguns contratempos burocráticos atrasaram a disponibilização do meu disco “pequenas tragédias” nos serviços de streaming, mas reacenderam certas questões importantes sobre o conceito de fonograma e do que é ou não considerado música.

Seu álbum não foi aprovado ainda. Favor retirar a referência “EP” da arte da capa, pois o álbum não se trata de um EP.

Com esse parecer técnico — e ligeiramente arbitrário — , o site de distribuição me obrigou a MUDAR A ARTE DA CAPA do disco para poder publicá-lo, coisa que fiz em menos de dez minutos de forçada resignação, afinal o “EP” está no próprio título, faz parte do conceito da obra, além de me parecer aplicável. Segundo a Wikipedia, “EP” (extended play) pode ser vagamente definido como “uma gravação em disco de vinil ou CD que é longa demais para ser considerada um single e muito curta para ser classificada como álbum”, então vejamos: usando o parâmetro do vinil, um single geralmente ocupa um compacto de 7 polegadas, com tempo máximo de 5 minutos por lado (10 no total, em média); um álbum completo ocupa um LP (long play) de 12 polegadas, com tempo máximo de 18 minutos por lado (36 no total, em média); e um EP (extended play) é justamente o meio termo, com 10 minutos por lado de um disco de 10 polegadas (20 minutos, no total, em média).

EP: estragando pizzas

Ora, o “pequenas tragédias” tem exatamente 18:36 de duração, como não pode ser considerado um EP? Pelo número de faixas, talvez? Oito é demais? Bom, é claro que estou exagerando, afinal o sistema de distribuição digital deve ter os seus próprios critérios, e se você quer entrar no jogo tem que aceitar as regras (mesmo que elas não sejam expostas claramente). Eu poderia argumentar que se trata de abreviação para “extremamente porreta”, “estereofônico primitivo” ou “escusa poética”, mas melhor não criar caso, até porque tudo vai ficar do tamanho de uma unha na tela do celular das pessoas no fim das contas. Após modificar a imagem da capa e enviar novamente o disco, recebi uma segunda notificação.


2.
UMA TORNEIRA PINGANDO NÃO VAI FAZER NINGUÉM DANÇAR

Seu álbum não foi aprovado ainda. Não pode conter faixas com sons genéricos sem nenhuma nota como consta na faixa nº8 — “Uma torneira pingando”, favor verificar.

Aí precisamos conversar. O serviço de distribuição definir o que pode ou não pode entrar no conteúdo de um disco já não é tão aceitável, principalmente com esses argumentos. Até entenderia a recusa caso houvesse letra ou imagem ofensivas, ou algo do tipo (e aí já entraríamos em outra questão), mas SONS GENÉRICOS? NENHUMA NOTA? Em primeiro lugar, trata-se de um som bem específico: as gotas da torneira mal-fechada da pia da minha cozinha, caindo lentamente sobre a louça suja.

Poderia especificar detalhadamente os utensílios, recipientes, e mesmo a natureza dos resíduos alimentícios do cardápio, caso tivesse tomado notas na ocasião. Mas posso afirmar que o fenômeno foi deliberada e cuidadosamente registrado em áudio, a uma certa distância adequada e em um momento específico, escolhidos justamente pelas CONDIÇÕES SONORAS que estavam ocorrendo naquele ambiente controlado, e tendo como parâmetro minha própria audição: o intervalo ideal entre as gotas, o nível de água nos pratos e panelas, a quantidade certa de louça na cuba, para gerar a reverberação adequada…

Todas essas características nos levam ao segundo item: a água caindo sobre outra superfície, em intervalos regulares, não formam um RITMO e as diferentes alturas sonoras, com seu timbre único e específico, uma MELODIA? A música está nos ouvidos de quem ouve, meu amigo. A bem da verdade, minha intenção inicial ao registrar esse pequeno acontecimento hidráulico era harmonizar a melodia da torneira e sobrepor outros instrumentos, mas fiquei tão satisfeito com o material cru que decidi expô-lo em sua forma natural— não sem antes escolher o momento de corte início-fim, colocando-o na moldura, e equalizar o áudio. Gostei tanto do resultado que foi o primeiro single do projeto (sem deixar de enfatizar o aspecto cômico disso, é claro).


3.
O BARULHO DO MUNDO

A ideia não é tão vanguardista ou contestadora assim hoje em dia, como John Cage, toda a história da música concreta ou das gravações de campo poderiam atestar. Com o advento da fonografia, iniciou-se, naturalmente, um processo de documentação e preservação cultural focado, de início, em depoimentos, declamações e demonstrações folclóricas — já com Edison e posteriormente estendendo-se desde a pesquisa dos etnomusicólogos Alan Lomax, que notoriamente registrou o blues e folk norte-americanos, e Mário de Andrade, com seu trabalho de catalogação da música popular brasileira, a iniciativas históricas fundamentais como o acervo de depoimentos para a posteridade do Museu da Imagem e do Som. Mas o aspecto puramente naturalista, como forma de documentar uma paisagem sonora por si só, ou de fato CRIATIVO não foi imediatamente levado em consideração. Acreditava-se na gravação como um mecanismo para transmitir objetivamente “a verdade”. A mensagem importava mais do que o meio, ou, — para citar McLuhan — tentou-se, em vão, transformar uma mídia quente, como o fonograma, em fria, como a partitura ou a transcrição. Até alguém parar para, de fato, ouvir os passarinhos.

hermeto e o som da aura dos pássaros

Se me ocorreu alguma apreciação estética pelo puro som gravado, ainda mais no contexto do álbum, como isso NÃO É MÚSICA? Mas vamos além: será realmente o papel da distribuidora, ou mesmo dos próprios serviços de streaming, decidir o que pode ou não pode entrar em um disco, baseado em critérios estéticos — pois já vimos que tecnicamente, sim, é música, mesmo que anedótica, e ainda que não fosse — ?

the(e) oh sees — untitled II

Uma coisa seria usar o artifício do conteúdo “extra-musical” (segundo eles) para pregar uma peça na plataforma, como no famoso caso do álbum silencioso Sleepify (depois tirado do ar). Algo que já havia sido feito décadas antes, aliás, mas com motivos humorísticos, em um disco conceitual do mímico Marcel Marceao, por exemplo. Outra é querer definir o que deve entrar ou não no repertório.

Pois bem, tomei a notificação como oportunidade para fazer uma segunda versão da faixa, voltando ao propósito inicial e acrescentando em alguns minutos, como solicitado, “alguma nota”. O resultado você pode ouvir, finalmente, com o disco todo no Spotify, Deezer, Napster e GooglePlay.


4.
GRAVANDO O SILÊNCIO

Além da experimentação com paisagem sonora dentro da própria música concreta e experimental, ou mesmo da música pop — o produtor David Hassinger famosamente abandonou as gravações de Anthem of The Sun, do Grateful Dead, após o pedido de Bob Weir para acrescentar um som de “ar denso” (mixado a partir de vários silêncios captados em locações diferentes) na canção Born Cross-Eyed, para citar um exemplo pitoresco — existe todo um mercado de gravações de campo para trilhas de relaxamento, sonorização audiovisual e ambientação em lojas e instalações. O mais curioso, na minha opinião, é o primeiro caso — que pode, inclusive, reapropriar material dos outros, como veremos — , embora a intenção não seja exatamente a audição cuidadosa, mas o deixar-se envolver.

Mesmo no campo do cinema, seja em forma de entretenimento ou especialmente de arte, o recurso do field recording audiovisual pode ser aplicado tanto por puro prazer estético e conceitual, desde os experimentos de Andy Warhol comendo um hambúrguer ou filmando o poeta John Giorno dormindo por cinco horas, por exemplo, quanto à trolada — lembra do Sleepify? — de Charlie Lyne na British Board of Film Classification, com um filme de dez horas de tinta secando em uma parede para ser avaliado pelo comitê.

No Brasil, vale lembrar o projeto Rio Oir de Cildo Meireles, que documentou em vinil diversos rios do país — além de outras fontes hídricas, embora uma pia cheia de louça suja provavelmente não estivesse entre elas — , também transformado em filme durante o processo. Ou a grandiosa obra Sonic Pavillion, de Doug Aitken, aberta à visitação no Instituto Inhotim, que troca a gravação pela amplificação em tempo real do interior de um tubo perfurado 200 metros dentro do solo, revelando o som da própria Terra. O efeito é inegável.

Doug Aitken — Sonic Pavillion (projeto e foto no local)

5.
PAISAGEM SONORA NO SÉCULO 21

Em uma tendência que vem ganhando força com o conceito de “slow TV” (o equivalente moderno a assistir a grama crescer, sem o incômodo de precisar sair de casa), a gravação de eventos mundanos e demorados em tempo real também pode fornecer os elementos auditivos para uma bela noite de sono durante a chuva, um piquenique em uma barraca na sala de casa ou o manjado mergulho com baleias comunicativas — e, caso ainda não exista, sugiro também os sons de uma ilha deserta para o sono solitário dos náufragos.

Enquanto algumas produtoras se empenham em captar os eventos com a maior fidelidade (ou veracidade, mas aí entraríamos em outra enorme discussão, fica para a próxima) possível, utilizando equipamento especializado e muitas vezes através de gravações binaurais — e falando em binaural, o YouTube facilitou o advento de certos fetiches sonoros muito específicos, como o fenômeno do ASMR (Autonomous Sensory Meridian Response) — , outras mais preguiçosas apelam para o truque do loop eterno, como a infame lareira de natal do Netflix (spoiler alert).

Porém, em plena era digital, o ouvinte obstinado de sons relaxantes não se contenta com a natureza ou mesmo os sussurros de alguma youtuber de fala macia qualquer: é preciso ir além, explorar os próprios ambientes virtuais em busca da paisagem sonora ideal, em universos alternativos, para algumas horas de sono ainda ligadas ao mundo eletrônico. Não estou bem certo do nome que isso recebe — certamente há um — , mas existem filmes de relaxamento com horas de sons ambiente captados dentro de jogos de vídeo game, reapropriando o trabalho da equipe de sonorização de uma forma no mínimo inesperada.

Deixando o personagem parado em um canto seguro do cenário por 5 horas ou mais, você pode dormir em um vilarejo medieval, numa nave espacial ou em um navio pirata no caribe, para citar algumas possibilidades.

os sons relaxantes do esgoto

Até mesmo o violento Grand Theft Auto conseguiu ser pervertido em um ambiente de contemplação e relaxamento, focando nos lindos cenários e no trabalho de som e mixagem do jogo, em uma apropriação para outros fins muito interessante. De forma semelhante, mas no campo visual, esse e outros títulos já haviam influenciado fotógrafos exploradores a retratar os seus exuberantes cenários [aqui e aqui], lembrando os projetos de fotografia dentro do Google Street View como 9-eyes e Agoraphobic Traveller, mas extrapolando ainda mais os limites entre virtual e real.

um fim de tarde melancólico no cais de GTA V

Quando criança, eu adorava os jogos que permitiam quebrar as suas próprias regras, como destruir objetos aleatórios do cenário ou sair do caminho padrão para explorar outras possibilidades de simplesmente existir naquele universo, sem nenhuma missão ou objetivo direto. No lendário International Superstar Soccer (acho), por exemplo, ao cometer uma falta perigosa, você podia fugir do juiz pelo campo e o cartão punitivo só era aplicado quando (e se) ele te alcançasse. Em certo título de hockey, não me lembro qual, era possível começar uma briga com outro jogador; ambos tiravam as luvas e passavam a trocar socos, deixando a partida de lado. Em Road Rash, para Mega Drive, quando nos cansávamos de correr pelas mesmas pistas e cometer o máximo de infrações homicidas de trânsito possíveis, costumávamos bater a motocicleta em algum obstáculo, fazendo com que o personagem fosse arremessado para longe e então passávamos a competir sobre quem terminaria a corrida a pé primeiro.

atletismo de capacete, por que não?

A busca do relaxamento ou da contemplação justamente no ambiente virtual que deveria servir de escape e liberação da violência (no caso de GTA ou da corrida de gangues) pode ter muito a dizer sobre os tempos em que vivemos, mas, na verdade não é difícil entender como algo assim pode surgir pelo simples prazer de se desviar o propósito estabelecido de alguma coisa. Afinal, é nisso que reside a arte.

outras leituras (em inglês):

FactMag — A Beginner’s Guide To…Field Recording

The Wire — Will Montgomery on the changing uses of field recordings

Piero Scaruffi’s History of Avantgarde Music