te mostro o meu café da manhã se você me mostrar o seu

Com a chegada dos stories e transmissões ao vivo, o meio influencia novamente a mensagem dos ansiosos habitantes do planeta. Se antes era preciso — ou deveria ser — pensar duas vezes antes de decidir compartilhar insights, piadas internas, textos e imagens pessoais, agora o impulso toma definitivamente a dianteira, gerando uma quantidade sem precedentes de informação circulando diariamente, minuto a minuto, nas redes. É interessante notar como com isso se desenvolveu ainda mais a necessidade dessa espécie de registro documental da própria vida, paradoxalmente marcado pela sua absoluta efemeridade. Se para o documentarista tradicional importa, em primeiro lugar, o registro arquivado, armazenado, decupado, com pelo menos algumas cópias de segurança e backups, para o autodocumentarista moderno importam mesmo o volume e a frequência de pequenos trechos disponibilizados e a quantidade de visualizações. Acumulando as funções de diretor, contra-regra, iluminador, editor e sujeito/assunto do próprio filme, passamos a ser também o público uns dos outros. A novíssima dinâmica de produção, distribuição e assimilação de conteúdo passa a englobar em um mesmo aparelho todas as etapas do processo. Felizmente, ainda existe alguma preocupação narrativa permeando as tomadas aparentemente aleatórias — cada story funciona como uma cena isolada, reconstruindo a trajetória das últimas 24 horas — embora ela dependa cada vez mais do espectador preencher as suas lacunas para transparecer. E é aí que reside o foco primordial nesta forma de interação social: tentar moldar a percepção que os outros terão de você ao preencherem esses espaços por conta própria. Afinal, como afirma o filósofo Ricardo Coimbra, hoje em dia qualquer Zé Mané tem imagem institucional — com missão, visão, valores e mini-biografias engraçadinhas compostas de citações fora de contexto. O curto prazo de validade desse tipo de conteúdo provoca, ainda, duas mudanças fundamentais no pensamento dos usuários: em primeiro lugar o desapego, que permite compartilhar material ruim e desinteressante sem a pressão de uma curadoria minimamente cuidadosa, de algo que ficará exposto “eternamente” em seus perfis. É claro que essa preocupação ainda existe na escolha do que pode e deve aparecer, e como sempre, o que está fora do quadro pode ter mais a dizer do que o que de fato é mostrado. Em segundo lugar, aumenta a compulsão por consumir o conteúdo dos outros, a ansiedade retroalimentada pelo FOMO (fear of missing out, medo de estar perdendo algo), que mantém os likes pipocando e o dedão passando sempre para o próximo perfil, o ciclo interminável do atualizar-se da vida alheia e a competição velada, na forma de uma comparação constante e penosa a que nos submetemos voluntariamente. Mas para além da pesquisa de mercado, é possível que a indústria tenha introduzido a novidade por motivos práticos: o que se aumenta exponencialmente em matéria de transmissão de dados, se reduz no armazenamento. Cada story existe apenas por um dia, caso o usuário não o salve em seu próprio dispositivo. Todo aquele espaço caríssimo em disco rígido pode ser usado com o que realmente importa: suas informações pessoais. De resto, tornou-se praxe visualizar o clima, o café da manhã e os animais domésticos dos outros até enquanto se realizam as nossas funções excretoras. A vida pública, definitivamente, agora é — como diria o Barão de Itararé — uma extensão da privada.