O estranho gesto de abraçar uma estranha

Uma noite úmida, uma atmosfera de desespero e um ato que dissolve mais do que a agonia. E o efeito de ter vivido esta cena.

Foto: sem créditos na página de onde retirei, cujo texto vale a pena ser lido, aqui.

A chuva daquele primeiro domingo do ano revelava o contentamento indisfarçável da cidade de Belo Horizonte, que havia sediado dias de sofrida secura. Eu conseguia sintonizar-me àquela alegria, inclusive por ter saído de um parque de diversões, depois de horas de gargalhadas e gritos que terminam por libertar-nos de algo que nem sabemos nomear. Durante uma hora, a força da água havia nos retido nas lajes que protegem os brinquedos de molharem as crianças. Quando enfim a torrente se fez garoa, saímos pulando as poças que nos indicavam o caminho até o carro, como João e Maria numa floresta de migalhas encharcadas.

[A calçada empoçada era o prólogo de uma cena que se viveria: o cimento e a água. A secura e a chuva. A convenção social e o desejo da alma. A estranheza e a intimidade].

O flanelinha que muito gentilmente havia nos conseguido uma vaga acenava com o braço direito, em meio à penumbra. Retirei seus honorários do bolso e fui até ele. Não estava mais ali o homem sorridente, já logo imaginei que era efeito da exaustão de fazer dos seus dias um control-cê-control-vê, sem a mesma perspectiva que eu tinha de transmutar minha vida num feliz e diferente ano novo. Mas a sua sisudez ia muito além de meus devaneios. Ao seu lado, em prantos, estava uma mulher com olhar entre o desespero e a perdição. “As duas filhas dela estão desaparecidas há duas horas”, disse. O homem não sabia o que fazer com a dor daquela mulher — e nenhum de nós saberíamos, muito provavelmente.

Aproximei-me. Algumas pessoas, incluindo a dona da barraquinha de cachorro-quente, mostravam a aflição projetiva em seus olhares preocupados. Era uma atmosfera sombria, porém umidificada pelo afeto caótico que tentava entrar pelas frestas do espanto. Em alguns segundos eu já saberia que as duas meninas haviam se perdido no meio da chuvarada, cada uma em sua bicicleta que estaria fadada a fazer o percurso da beirada da lagoa, não fosse o súbito impulso de se proteger da água em alguma marquise. E que vários carros já se encontravam em movimento solidário coletivo, realizando buscas informais enquanto a polícia não chegava.

Vinte intermináveis minutos se passaram, até que um rádio de polícia avisou que as duas meninas estavam a salvo, a caminho do abraço daquela mãe em estado de choque e agonia. Quando a voz metálica terminou sua preleção, a atmosfera tétrica se viu finalmente dissipada: palmas e sorrisos saíam de todos nós, indiferentes às poças que se desfaziam pelos pulos de alegria. Era uma euforia atípica, muito diferente daquela do estádio de futebol que ficava a poucos metros dali. Talvez a cultura mineira demarcasse a distância entre os corpos mais uma vez, já que costuma ter esta mania de equiparar intimidade a impertinência.

Eu olhava para a mãe, cujo nome não consigo me recordar, mas que sou capaz de reconhecer em meio a uma multidão, dada a intensidade com que me vinculei ao seu sofrimento naquela meia hora infernal. Num instante eu lhe propus um abraço, que transgredisse a comemoração um-a-um que continuava a acontecer ao lado. Ela sorriu, e se aproximou do meu peito. Não sabia bem como abraçar-me, já que o desconhecimento é ausente em protocolos. Meu constrangimento também era parte daquele abraço, mas jamais maior que a emoção que nos emoldurou. Ficamos ali, em silêncio, os dois em lágrimas, ela convulsionando seu alívio em meu peito e eu sendo inundado pela onda do amor que podia voltar a ficar tranquilo.

Eu não tenho a menor ideia do que representou para ela aquele abraço. Em pouco tempo o carro da polícia estacionou e ela correu para reencontrar as filhas. Eu posso dizer o significado dele para mim. Entrei no carro, meus filhos queriam só saber se tudo estava bem com as meninas. Eu respondia ainda entorpecido, com frases feitas. O silêncio em mim retumbava mais que o desejo de acalmar as crianças, também contaminadas pela aflição do contexto. Abraçar aquela mulher teve o sabor de uma epifania, mescla de adrenalina com ocitocina, curando o constrangimento com a linguagem da alma humana. É receber o certificado de pertencimento a uma fraternidade universal que se esconde atrás das distâncias que nós inventamos para dar à vida mais segurança, privacidade e solidão. É carimbar nas vísceras um instante que pode ser memória e referência para ser reproduzido em outros dias ensolarados, com pés descalços, com mãos enrugadas, ou em qualquer instância humana que possa ser inventada por nosso desejo de ser mais do que dizem que podemos ser.

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