“Janis — Little Girl Blue”

O documentário biográfico que eleva a discussão dos dramas e da morte precoce da cantora Janis Joplin

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- Eu não sei se você conheceu Janis Joplin…

- Ela me mandou uma fita no meu aniversário […] depois que ela morreu a fita chegou na minha casa, ela estava cantando Happy Birthday no estúdio.

- O que você pensa sobre a overdose de drogas?

- Eu penso que a pergunta básica tem que ser porque pessoas usam drogas de qualquer tipo como: álcool, aspirina ou drogas pesadas. […] Quero dizer que há algo errado na sociedade que nos pressiona e nós não podemos viver sem nos proteger contra isso. Este é basicamente o problema.

Trechos do diálogo entre o Dick Cavett e John Lennon resgatam um debate que atravessa décadas sobre as drogas e a morte prematura de diversos artistas. Há particularidades sobre a vida de Janis Joplin, morta por overdose aos 27, que nos remetem a uma reflexão além do que o senso comum tentou nos induzir a acreditar.

Janis nasceu em Austin, no estado americano do Texas. Começou a cantar muito jovem, participou de um coral na cidade e logo foi expulsa. Depois finalmente conseguiu encontrar uma identificação com o Blues e começou a cantar. Tentou fazer parte do clube Folk mas não foi aceita. Os detalhes dessa parte biográfica estão no documentário dirigido por Amy Berg “Janis — Little Girl Blue”, atualmente disponível no Netflix e iTunes.

Os motivos que levaram Janis Joplin para a Califórnia foram cuidadosamente revelados em entrevistas as quais fizeram uma reconstituição dos dramas vividos pela cantora. Diversos artistas testemunharam a vida de Janis, o documentário tem entrevistas inclusive com os que foram membros da banda Big Brother and the Holding Company como Peter Albin, Sam Andrew e Dave Getz.

Tudo dialoga com os trechos em que ela canta, sorri, se emociona, desabafa, se abre. É tão intenso ouvi-la, o palco era o divã de Janis e após um show soubemos com mais detalhes da sua intensa solidão.

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- Eu precisava deixar o Texas, baby! Senhor, aquilo estava me fazendo mal.

As composições que cantava denunciaram uma violência machista sofrida na cidade onde nasceu. Com seu jeito irreverente notado desde muito jovem, incomodou os garotos covardes que eram muitos em sua cidade.

- Onde ela iria? O que iria fazer?

A irmã, Laura Joplin, revela os detalhes dessa perseguição a Janis. Havia um grupo de “homens furiosos” que se multiplicavam contra ela. A voz de Janis incomodava quem invejava seu potencial. As cenas mostram como Janis foi buscar um lugar para cantar, viver e ser ela mesma.

Não por acaso, a Califórnia foi o lugar ideal. O mundo passava por uma transformação que as gerações mais recentes desconhecem os detalhes e a intensidade. Nas ruas de São Francisco, quando ela chegou em 1963, negros e brancos marchavam contra a desigualdade e os Beatniks lutavam pelos direitos civis com a música.

Janis logo se identificou com este contexto, sentia a dor dessas pessoas. Bessie Smith a inspirava e ali Janis conectou sua voz junto aos Blues. A narrativa dos que a conheceram mostra um lado dolorido que levou Janis a mergulhar desde cedo nas drogas. “Ela era infeliz, talvez no palco ela sentisse que era alguém”, disse uma amiga.

Não foi só tristeza: quando ela sorria nas cenas é possível conhecer também que Janis se submeteu a uma busca intensa para ter o próprio espaço, novos amigos, momentos de felicidade. Os machistas de Austin não a fizeram desistir e ela encarou a audição de uma banda repleta de homens; passou, então, a integrar o grupo Big Brother and the Holding Company.

Com aquela voz que rasgava notas em tons graves, logo se destacou e passou a atrair muitos fãs. Havia por um lado uma espécie de alívio por conquistar a aceitação social em São Francisco. Mas os entrevistados do documentário narram o vazio de Janis.

— Depois do show se sentia sozinha.

Há trechos de entrevistas em que um repórter, bem parecido com aqueles sensacionalistas do documentário “Amy”, insistiu em perguntar sobre o passado de Janis no Texas. Ela evitou uma resposta enquanto a expressão do seu rosto demonstrava a dor intensa que aquilo provocava.

O documentário não tange toda a história de Janis, mas ousou registrar em uma profunda pesquisa os dramas que ela viveu e que a levaram a uma morte precoce. Ela foi encontrada morta em 4 de outubro de 1970. Muitas artistas consideram que ela foi fundamental para “fincar uma bandeira” e dar espaço no Rock and Roll para as mulheres.

janismovie.com

Há quem diga que o machismo não existe. O documentário “Janis — Little Girl Blue” retrata entre outras coisas uma perversidade que ainda não superamos. É um antídoto, uma arma contra a amnésia, uma reconstituição histórica nos passos de uma artista que encantou pessoas em diversos continentes.