Tive a oportunidade se ser colega de turma do primeiro astronauta brasileiro, Marcos Pontes, em uma formação de Coaching. Depois disso estive também em uma palestra incrível que ele deu. Cheio de humor e amor a profissão. Fiquei muito inspirada e por isso quero compartilhar um pouco dessa história de superação. Vamos ver o que ele fez para voar alto?!

É possível traçar a vida profissional sem confundir sonho com ilusão?

Sonho e ilusão são coisas muito distintas. Sonhar é essencial. Escolher um sonho como um ideal e transformá-lo em objetivos é o que dá possibilidades reais, dá sentido às nossas vidas. Planejar e executar ações em direção a esses objetivos nos distancia, a cada segundo, da idéia de ilusão ou medo de frustração: aquilo que muita gente usa como desculpa para a falta de coragem ou energia para tentar e realizar. Ilusão é pensar que um sonho pode ser realizado sem trabalho, suor e persistência.

É possível administrar o tempo entre a carreira de astronauta e a vida pessoal?

Não é possível completamente. Ao longo de minha vida profissional, sempre tive que abrir mão do tempo que tinha para minha família e amigos para seguir minha carreira. Não me arrependo, faço o que tem de ser feito…as pessoas de boa índole do país merecem.

Você começou a sua vida profissional em Bauru como eletricista aprendiz aos quatorze anos para poder pagar seus estudos, até levar a bandeira do Brasil ao espaço. Você tem algum segredo ou metodologia especial para realizar e viver os seus sonhos?

Todas as pessoas têm problemas, mas com estudo, trabalho, persistência e esforço tudo é possível!
 Não existe uma receita de bolo para o sucesso. Existe atitude positiva!

Como foi driblar as barreiras e se tornar pioneiro ao representar o Brasil em uma missão tão importante para o desenvolvimento tecnológico e científico?

Sinto-me feliz pelas coisas simples da vida. Não apenas pelo passado, mas viver cada dia. Trabalhar para atingir um objetivo, viver a concretização de um ideal. Representar o país é algo que exige muito como profissional e como pessoa. Em 1998, o governo brasileiro me deu a missão de levar a bandeira brasileira ao espaço pela primeira vez. Para isso, coloquei minha vida em segundo plano por quase uma década. Sacrifiquei a convivência com a família, não vi meus filhos crescerem, sacrifiquei minha carreira militar, pois tive que sair, na prática, do serviço ativo como militar no mesmo ano (1998), visto que astronauta é uma função civil, sacrifiquei minha saúde, coloquei minha vida em risco, literalmente, pelas nossas cores. Tudo isso são escolhas. Fiz tudo com prazer, pelas pessoas do meu país que são boas e merecedoras do meu sacrifício. A vida continua agora, novas missões espaciais (quem sabe?), novos desafios profissionais ainda maiores, novos desafios pessoais, etc…Continuo muito feliz!

Além de estudar muito, o que é necessário para que uma criança siga seus passos?

Para uma criança que tem um sonho, como o seu filho, eu diria que ela já tem uma grande porcentagem do que ela precisa para realizar aquele sonho. É preciso sonhar para realizar as coisas. É preciso acreditar no sonho, é preciso se esforçar para realizar o sonho, é preciso ter persistência quando as coisas não funcionam exatamente, e é preciso saber comemorar cada passo, e saber que cada passo compõe o máximo que a gente acaba chegando. Permita que ele realize seu máximo potencial. Incentive. Não coloque limites na sua imaginação. Acredite e apóie.

Quais as características fundamentais para um profissional ser bom na carreira?

Coragem para sonhar, criatividade para planejar, comprometimento para executar, persistência para tentar mais uma vez, humildade para continuar aprendendo e paciência com a mediocridade dos críticos.

Porque muitas crianças — e adultos — sonham em ser astronauta?

O ser humano precisa de desafios para viver e desenvolver-se. O desafio do desconhecido fascina. O espaço é um local ainda não muito explorado, poucos têm a cesso a ele, e pra isso precisa de muito estudo, muito treinamento, portanto é um grande desafio. Tudo o que é desconhecido do homem passa a ser imaginado, então se especula muito sobre como seria a experiência. Acho que isso tudo contribui para esse fascínio.

Sobre “a importância de conhecer nossos limites e trabalhar na direção de ampliá-los”. No trabalho, como colocar isso em prática?

Normalmente queremos mudar alguma coisa, alguma situação, ao nosso redor. É essencial perceber que a primeira coisa a ser mudada, antes de qualquer coisa, é a própria pessoa. Aperfeiçoamento contínuo! É importante conhecermos muito bem a nós mesmos. Sermos honestos a respeito de nós mesmos. Observar a situação, planejar as ações e comparar os requisitos com as nossas habilidades atuais. Ninguém é perfeito. Sempre teremos que melhorar alguma coisa para sermos mais eficientes. Inclua seu treinamento no seu planejamento. Cumpra essa parte. Não se esqueça de considerar o trabalho em equipe também!

O aprendizado contínuo é importante para o crescimento profissional?

O aprendizado contínuo é importante em qualquer área, tanto profissional quanto pessoal. Nossa vida é muito curta para tudo o que seria importante para aprender.

Como promover um relacionamento agradável e produtivo em equipe?

O assunto de convivência em grupo é um dos pontos essenciais desde a seleção de um astronauta. Trabalho em equipe é vital para o sucesso de uma missão espacial..ou qualquer tipo de projeto importante. O segredo é aprender a ver a situação da perspectiva dos outros participantes do grupo.

Assim como qualquer atividade na empresa, cumprir uma missão em volta da Terra exige um bom planejamento e um período de treinamento especial dos tripulantes? Como é realizado este processo de trabalho antes de voar? Que critérios são seguidos para elaborar um plano de ação eficiente?

Todas as missões espaciais são planejadas a minuto. Como você pode imaginar, os desafios de logística, tecnologia, coordenação, comunicação, etc, são enormes. Além de um treinamento exaustivo de muitos anos para as “funções gerais”, também existe um treinamento específico de vários meses para as “funções específicas daquela missão”. Temos que contar também com as alterações em tempo real (desvios do planejamento inicial). Para tanto, o sistema de coordenação e controle das atividades tem de ser rápido e eficiente. Os critérios técnicos variam conforme o objetivo da atividade e incorporam mais ou menos fatores de segurança segundo o nível de risco envolvido.

Sua palestra “vencendo o medo e correndo riscos” discute como superar as inseguranças ao romper limites no processo de crescimento profissional e pessoal. O que a sua ida ao espaço contribuiu na sua carreira e na sua vida pessoal? Teve algum aspecto negativo? Se sim, qual?

Como citei, o medo existe. Mas a gente tem que superar, as pessoas temem o medo, e então quando percebem, o medo já tomou conta. O medo existe para nos manter alerta, para que possamos enxergar os riscos, para que possamos visualizar os riscos e pensar numa solução. Minha ida ao espaço envolveu inúmeros riscos, mas também muita preparação e graças a Deus foi tudo bem, com poucas falhas de sistemas. Assim eu pude ir, representar o Brasil na Missão, fazer os experimentos da Agência Espacial, cumprir todos os objetivos colocados pela Agência Espacial Brasileira para sua missão, a Missão Centenário, pude tripular a missão da Agência Espacial, levando a bandeira do Brasil e também o coração de brasileiro, que eu acho que é extremamente importante. O único aspecto negativo da missão foi a atitude de alguns dos compatriotas depois do retorno. Mas isso é parte do sucesso da missão.

Os astronautas em geral possuem uma formação bastante diversificada e requer muito estudo ao longo da carreira, bem como uma boa saúde física e mental. Em algum momento, o senhor sentiu medo e quis voltar atrás? Diante de tantas exigências da profissão, qual a receita que o fez não desanimar e seguir em frente com motivação?

Medo é uma emoção intrínseca do ser humano. O que se deve aprender é como continuar sendo eficiente nas situações críticas. Isso distingue um bom profissional da área operacional daqueles que irão causar acidentes. Levando o assunto para a esfera mais ampla, da carreira como um todo, sempre haverá momentos de maior dificuldade a serem superados. Esses momentos podem ser naturais, ou esperados pela seqüência normal de eventos, ou causados por pessoas que se julgam nossos inimigos. A receita é simples: pense em tudo como algo que irá ajudá-lo a ser cada vez melhor. Agradeça a Deus todas as manhãs pelas oportunidades de melhorar. Agradeça aos inimigos pela atenção dispensada e pelo tempo que gastaram preparando o seu auxílio à instrução. Viva cada dia…escolha ser alegre e feliz!

O estudo foi o seu passaporte para conquistar o espaço. De acordo com sua experiência, em que medida o aprendizado contínuo é importante para o crescimento profissional, independentemente da área de atuação?

O aprendizado contínuo é importante em qualquer área, tanto profissional quanto pessoal. Nossa vida é muito curta para tudo o que seria importante para aprender.

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A sintonia da equipe é ponto de partida para um trabalho com êxito. Ao realizar trabalhos longe da terra firme, essa sintonia entre os tripulantes deve estar mais fortalecida do que nunca. Dessa forma, em uma missão onde todos os colegas de trabalho convivem juntos 24 horas em um mesmo local, como cada um pode promover um relacionamento agradável e produtivo?

O assunto de convivência em grupo é um dos pontos essenciais desde a seleção de um astronauta. Trabalho em equipe é vital para o sucesso de uma missão espacial..ou qualquer tipo de projeto importante. O segredo é aprender a ver a situação da perspectiva dos outros participantes do grupo.

Depois de ter realizado um sonho, o senhor se sente um profissional já realizado ou ainda acredita que tem novas missões a cumprir? É possível um profissional que já tenha atingido seu objetivo voar ainda mais longe? De onde tirar essa força?

Ainda tenho muitas missões para cumprir. Continuo a disposição do Brasil para uma nova missão espacial como astronauta. Depois que a Força Aérea decidiu me colocar na reserva, seguindo o que é normalmente feito por todos os países com astronautas de origem militar, para que possamos exercer a nossa função civil de astronauta, a minha missão ampliou bastante. Hoje também participo e tenho muitos planos em muitas áreas como: tecnologia, meio-ambiente, educação e social. A força de trabalhar vem da vontade e do gosto em ajudar aos jovens a realizarem seus sonhos, amo o que faço e sempre estarei disponível para o que precisarem de mim no país ou em qualquer outro lugar do mundo.

fonte: www.marcospontes.com