Árvores, cigarros e calcinhas

O amor é uma mentira

Não sabia que roupa usar. Não sabia que sapato usar. Não sabia que calcinha usar. Ou se devia usar alguma. Pra ser sincera nem queria ir. Não gostava das festas da própria empresa, quem dirá de outras. Festa não. Confraternização de colaboradores. Mas o chefe dele queria que ele fosse e ela não ia deixá-lo ser jogado aos leões. Leões entediantes, fofoqueiros e invejosos. Amar é. Decidiu por um vestido que combina perfeitamente com aquela sandalinha. Sandalinha que ela emprestou pra uma amiga. Suspira, senta na cama e olha pro armário esperando por uma partícula de decisão. O noivo bate na porta do quarto, trajado de regalia incompatível com a ocasião.
-Homem, por que você tá usando uma camiseta? Eu já tô quase pronta e você aí enrolando. Ele observa as roupas espalhadas com um olhar nada convencido.
-Desculpa, amor. Eu sei que você queria muito ir mas eu não tô me sentindo bem.
-Como assim? Por que você não disse nada antes? Quer ir pra um hospital?
-Não, não. É só um mal-estar, nada grave. Só vim avisar que já pedi comida japonesa e estou te esperando no sofá para uma confraternização entre colaboradores e um pouco de Netflix. Quando você terminar de arrumar as roupas, é claro. Ele sai do quarto e a deixa totalmente perdida, ainda sentanda na beira da cama. Quando a compreensão surge, ela levanta e vai para a confraternização com um sorriso no rosto. E deixa as roupas largadas por todos os lados.

O amor está numa mentira.

O amor é uma peça

Pobre Anderson, nosso jovem protagonista, sentado no pátio da escola admirando a deslumbrante Luíza. Linda, popular, coadjuvante e inalcançável Luíza. Com seus cabelos sedosos, sua risada contagiante e seu corpo tão perfeito que nenhum uniforme escolar pode esconder.
- Oi, Anderson. Você tá babando um pouco. - diz Gabi, extra e amiga Gabi.
Assim arrancado de seu sonho diurno, ele tenta recuperar sua dignidade.
-Haha. Você sabe muito bem que é por causa desse maldito aparelho. Ainda não me acostumei em ter uma grade de metal na boca.
-Vou fingir que acredito. Enfim, não obstante as babas alheias e dramas dentais, só vim pedir um favor. Anderson? - ela abana a mão na frente dos olhos dele - Anderson!
-Que?! Eu tô ouvindo - diz Anderson, com uma mão no ouvido enquanto tenta se livrar de um certo zumbido - Vai, diz o favor.
-Hum... Bem, a prova de português tá chegando e eu pensei que você podia ir lá em casa nessa quarta pra me ajudar a estudar. Não vai ter nínguém lá então a gente pode se concentrar. Você que sabe, tudo bem se estiver ocupado.
Como ela conseguia falar tanto e não ser entediante? Ele não conseguia parar de prestar atenção, era como hipnose. Tudo bem, ela estava a metros dele e não dava pra ouvir uma palavras, mas ainda assim...
-Anderson?
-Acho que posso sim mas depois a gente vê isso com calma. Nem sei porque precisa de ajuda com um vocabulário desses. Não obstante. Quem diz isso?
-Eu. Tá bem. Vou lá então.
Depois de esperar algum tipo de reação vinda de nosso protagonista, Gabi se afasta meneando a cabeça.
Como ele podia se aproximar dela? Essa pergunta consumia seus dias mas ele nunca conseguia achar uma resposta que faria dele mais do que um extra na vida de Luíza.

O amor é uma peça e frequentemente somos apenas a árvore no fundo do palco.
Pobre Gabi.

O amor é plágio

Cigarro, violão, lápis batendo ritmicamente no papel. Não sabia o que escrever. Nunca foi um compositor muito talentoso, e até isso é um eufemismo, mas nunca se sentiu tão medíocre. Clapton fazia isso parecer tão simples. Será que seu ídolo também ficava sentado em algum chão empoeirado, coçando a cabeça e xingando o universo? Provavelmente não. Duvidava que a Layla tivesse pedido alguma canção dedicada à ela. Acabou ganhando uma com o nome dela no título. Existe alguma lição nisso mas ele não presta atenção. Cigarro na metade, violão no chão, lápis rolando entre os dedos. Teve uma idéia. Tocou alguns acordes e se empolgou. Um minuto depois fez uma careta e colocou o violão de volta no chão. Se pudesse mudar o mundo teria dado a si mesmo mais criatividade. Do jeito que é agora, tem um pouco mais do que a pessoa que pensou no nome besouro rola-bosta, o que não é lá muito consolo. Precisava de alguma música pra apresentação do fim de semana, e rápido, ou não teriam tempo pra ensaiar. Teve uma idéia. Cigarro apagado, casa cheia, guitarra em mãos. Ela está na platéia, olinhos brilhantes e sorriso vigoroso, quando ele sobe no palco e anda até o microfone.
-Alguém muito especial pediu pra que eu escrevesse uma música pra ela. Falhei. Falhei miseravelmente. E foi muito bom eu ter falhado porque existem outros que já escreveram o que quero dizer. Se eu pudesse mudar o mundo, eu teria escrito Change the world antes do Clapton. Essa é pra você.

O amor é plágio mas quem se importa com as palavras?

O amor é um despertador

Se separara do marido a dois meses e ela ainda não havia aceitado. Sabia que devia seguir em frente mas era fácil falarem. Não eram eles que se perguntavam aonde haviam errado, o que tinham feito, ou o que não tinham feito, para que ele precisasse de uma amante por tanto tempo. Se levantou da cama, tomou um banho rápido e saiu de casa. No trabalho, notava a movimentação dos dedos, esguios e com unhas pintadas de um azul cintilante. Se mexiam de modo hipnótico, acariciavam o teclado como se fosse a pelugem de algum animal exótico. O ar-condicionado do escritório, quase vazio num dia de sábado, insinuou-se contra o calor de seu corpo, despertando os poros da barriga, das costas, dos quadris. Sua pele estava alerta. Chegou em casa, tirou os sapatos e sentou no sofá. Roçou os pezinhos um no outro e no tapete. Estava em um banquete sensorial e aproveitava cada prato. Tomou banho e, ao passar pelo espelho, parou por alguns segundos. Observou as gotas que escaparam da toalha escorrendo por sua pele nua, admirou as formas do corpo de uma mãe de dois. Deitada, se tocou, se massageou, se curtiu tanto quanto podia e se tremeu toda quando o orgasmo veio. Gozara enrolada nos lençóis, sozinha e satisfeita.

O amor é um despertador numa manhã de domingo. A gente nem precisa dele.