Loja de departamentos furtava 26 mil litros d’água por mês em cidade da Grande SP


Flagrada esta semana pela Sabesp, a fraude é apenas mais uma entre o cerca de mil casos mensais de furto de água que ocorreriam no estado, de acordo com técnico da companhia. Número expressivo de fraudes, segundo o funcionário, está diretamente ligado à precarização do serviço de prevenção e fiscalização

Por Ivan Longo da Revista Fórum

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) flagrou, na última segunda-feira (23), um furto de água executado por uma unidade das Lojas Marisa em Carapicuíba, na Grande São Paulo. Por meio de fraudes no hidrômetro, a unidade desviava cerca de 26 mil litros de água por mês.

O responsável pelo estabelecimento foi preso em flagrante e encaminhado para a 3ª Delegacia de Patrimônio do Deic (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado).

Não se trata de um caso incomum. Um técnico da Sabesp, que preferiu não ser identificado para não sofrer represálias da empresa, revelou que se trata de um problema antigo, recorrente e que está diretamente ligado à precarização do serviço e à crise hídrica que assola o estado.

Quase mil por mês

Membro do Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) e funcionário por mais de treze anos na área de fraudes da companhia, o técnico revelou que, somente na região oeste da capital e Região Metropolitana, são registrados, em média, cerca de 400 casos de furto e fraude de água em empresas e residências.

“Por treze anos trabalhei nessa área e posso afirmar com segurança: não é um caso isolado. Todo mês, só na região oeste, são cerca de 400 casos. E isso já vem de logo prazo. É claro que com a crise da água se intensificou”, contou.

De acordo com o funcionário, as outras regiões (sul, norte e leste) registram números parecidos em relação aos furtos. Ele estima, portanto, que sejam por volta de mil casos — ou até mais — de fraudes mensais em todos os lugares atendidos pela Sabesp.

“Nós até fizemos críticas recentes ao governo, por que o número de fraudes aumentou muito principalmente depois que o governador instituiu o bônus pra quem economizasse”, completou, sinalizando que o desconto acabou por estimular as pessoas e empresas a praticarem fraudes para consumir mais água pagando menos.

O serviço terceirizado e o “mercado do furto”

Questionado sobre os motivos que levam a existir um número tão expressivo de furtos de água, mesmo antes da crise hídrica, o técnico foi direto: a terceirização do setor de combate e prevenção a fraudes. “Até há algum tempo atrás, esse serviço era exclusivo da Sabesp. Hoje em dia 90% do setor de ‘Caça Fraudes’ é terceirizado. Isso acabou precarizando a mão de obra”, afirmou.

Além da precarização, o funcionário da companhia destacou outra consequência grave da precarização do serviço, a formação de um “mercado”. “Quando acaba o contrato com uma empresa, os trabalhadores são demitidos e outros são contratados. Esses trabalhadores demitidos, por sua vez, começam a vender seu conhecimento de fraudes e de alteração de hidrômetro para pessoas e empresas”, revelou.

De acordo com o técnico, a maior parte dos casos de furto de água registrados são em residências. Ainda que o problema da falta d’água atinja com muito mais força as periferias, quem furtaria mais água são os mais abastados. Em um caso de fraude no ano passado, por exemplo, uma mansão no bairro de Alphaville desviava cerca de 18 mil litros de água por mês, chegando quase ao mesmo patamar que a unidade das Lojas Marisa, que desviou 26 mil litros.

“A porcentagem maior de roubos está nas residências. Mas isso não significa que venha de casas da periferia, não. A maior parte dos casos vem de regiões nobres, como Alphaville, Aldeia da Serra, Higienópolis.”

Procurada, a assessoria de imprensa da Sabesp se mostrou à disposição para rebater as afirmações do técnico, chegando a afirmar que “um funcionário não pode falar pela companhia”. Até o momento da publicação desta reportagem, no entanto, a empresa não deu qualquer tipo de posicionamento em relação aos nossos questionamentos.

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