[memória rebelde] 4 anos do lesbocídio de nicole saavedra bahamondes

nicole saavedra bahamondes, nascida em 9 de agosto de 1992, era uma lésbica que vivia em el melon, zona rural de limache, na quinta região do chile. filha mais nova de uma família pobre, nicole era estudante e estava há um semestre de formar-se como técnica em prevenção de risco laboral, no instituto de quillota. sua prima, maría bahamondes, relata que nicole escolheu estudar em quillota, há 18 km de el melon, porque lá tinha uma rede de amigas e amigos, e também porque sentia-se mais cômoda fora da comuna rural em que vivia, onde sofria ataques lesbofóbicos pelo menos desde os 14 anos, principalmente pelo fato de que era uma lésbica caminhoneira (que não performava feminilidade). maría menciona, inclusive, que aos 16 anos nicole foi assediada e perseguida por um grupo de homens que dizia que iam "torná-la mulher". finalmente, aos 23 anos, ela foi sequestrada, torturada, abusada e espancada até a morte por ser lésbica, por ser caminhão, por não esconder sua sexualidade.

nicole foi vista com vida pela última vez na manhã do dia 18 de junho de 2016, na comuna de la cruz, onde depois de uma noite de festa com suas amigas, caminhou até um paradeiro para esperar o ônibus que lhe levaria de volta pra casa. ela nunca chegou. depois de uma semana desaparecida, seu corpo foi encontrado no cerro los aromos, há 40 minutos de distância de el melon, com as mãos amarradas e apresentando sinais de tortura física e violação sexual; a autopsia confirmou que sua morte ocorreu devido a "múltiplas faturas no crânio".

juan emilio gática, primeiro delegado responsável pelo caso de nicole, mostrou enorme incompetência desde o princípio das investigações - negando-se, por exemplo, a analisar o caso desde a perspectiva de crime de ódio, de lesbocídio. cabe dizer também que a delegacia de limache nem sequer fez uma busca por nicole quando a família informou seu desaparecimento; o corpo foi encontrado aleatoriamente, quando um grupo de trabalhadores que estava recorrendo o local. a família de nicole exigiu a retirada do delegado juan emilio gática do caso, o que lograram depois de quase dois anos de má-vontade. o caso passou a ser administrado pela delegacia de quillota, já na região de valparaíso. ainda ocorreram mais três alterações no comando da investigação, até que em outubro de 2019, mais de três anos após seu assassinato, o estuprador lesbocida victor alejandro pulgar vidal foi formalmente indiciado. ele era motorista do ônibus que percorria o trecho la cruz-el melon, e o celular de nicole foi localizado em posse de uma parente sua. à altura da descoberta, victor pulgar já estava cumprindo pena pelo estupro de duas menores de idade.

é importante sinalizar que durante esses quatro anos, desde que perdemos nicole, o apoio de coletivos e individualidades lesbofeministas foi crucial tanto para a visilidade do caso, quanto para o apoio emocional da família - principalmente de olga, mãe, e maría, prima, que corajosamente encabeçaram a luta judicial para encontrar o assassino lesbofóbico.

as fotos que ilustram o texto são de um cerimonial organizado em memória de nicole aos 3 anos de seu assassinato, onde compareceram suas amigas/amigos e ativistas lésbicas e feministas, além de familiares. "só quero agradecer-lhes por estarem aqui. se não me veem chorar, é porque já não tenho lágrimas", disse olga, sua mãe, dirigindo-se às solidárias presentes. nessa ocasião suas amigas construíram um altar em memória de nicole, com algumas de suas coisas favoritas: água, ervas medicinais, vinho, instrumentos musicais, plantas, uma pegada impressa por seu cachorro gastón, incensos, palo santo, e sua manta favorita.

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ainda cabe dizer que além de nicole, outras lésbicas foram assassinadas nessa mesma região: maría pía castro, 19 anos (2008), e susana sanhueza, 22 anos (2019). que não deixemos nossas mortas esquecidas; que nossa memória construa rebeldia.

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