A falta de ação e de princípios

Por Guilherme Lichand, João Francisco Maria, José Frederico Lyra Netto e Tábata Amaral de Pontes para o ACREDITO

Há pouco mais de um ano, escrevemos um artigo para a Folha de S. Paulo. Analisávamos o dilema ético da saída de outro presidente. Na ocasião, discutíamos o julgamento da chapa Dilma- pelo TSE como a melhor solução para esse dilema, se feito em tempo. Dissemos:

“Este ponto é claro, independentemente do que se espera para o resultado desse julgamento. Se a cassação não ocorrer, tira-se ao menos uma das espadas do pescoço de quem ocupa a cadeira da Presidência, contribuindo para a governabilidade necessária para voltarmos a discutir o futuro do país (…)”
Foto: Uol

Infelizmente, a demora no julgamento puniu o país de duas maneiras. Na primeira, e mais óbvia, o prolongamento conspirou para que o presidente indicasse dois novos ministros. Ao julgarem a legitimidade do financiamento da chapa na qual foi eleito aquele que os indicou, abriu-se espaço para questionar o resultado da votação. A governabilidade, necessária para um novo projeto de país com que sonhávamos há um ano, seguiu abalada.

Na segunda, e menos óbvia, a manutenção da espada no pescoço do presidente contribuiu para uma busca atropelada por confiança. Sinalizações ao mercado foram feitas com medidas excessivamente duras, como congelar os gastos do governo por 10 anos (que segundo artigo recente de Dany Rodrik e FilipeCampante, professores de Harvard, não encontra suporte em teoria econômica). Mais ainda, reformas importantes foram tocadas sem a devida discussão ampla com a sociedade, com a pressa de quem espera que as luzes possam se apagar a qualquer momento.

Se com o resultado do julgamento o TSE deu a aparência de que não queria interf erir nos outros poderes — reforçada pela expressão inflamada do Ministro Gilmar Mendes (“se querem caçar o presidente, que o façam pelo Congresso!”) –, em verdade interferiu substancialmente ao decidir pela falta de ação.

A falta de ação, aliás, é muitas vezes tão ou mais reveladora da falta de princípios quanto a ação. Nesse momento, estamos mais uma vez diante de um dilema ético fruto dela. O presidente Michel Temer, gravado por um grande empresário ouvindo planos maquiavélicos de captura de juízes e parlamentares, nada fez. Não condenou, não reportou; omitiu-se. Se incorreu em conduta criminosa, cabe ao STF julgar. Que assumiu uma postura que não está à altura do cargo que ocupa, disso não há a menor dúvida.

FOTO: GABRIELA KOROSSY/ CÂMARA DOS DEPUTADOS

Ainda, tem sido surpreendente assistir à falta de ação dos movimentos. Onde estão aqueles que clamavam pelo povo nas ruas, pela ética e contra a corrupção? Optam (agora ou sempre?) pelo pragmatismo ao invés daqueles princípios? E o que dizer dos partidos que defendem a permanência do governo citando reformas, mas de olho em 2018?

Diante de dilemas éticos, devemos buscar não só o bom, mas o justo e o legítimo. Em nome do que julgam bom — governabilidade e crescimento –, podem estar deixando de fazer o certo. Diante do momento de grave crise e instabilidade vivido pelo Brasil, somente a ação, guiada por princípios e imparcialidade, pode garantir a legitimidade de nossas instituições e lideranças. Relativizar esses valores pode gerar uma conta que o futuro próximo cobrará.

Nesse momento, mais do que nunca, precisamos de movimentos, de partidos e de lideranças que não se omitam. Que não se apequenem diante de dilemas éticos, mas mantenham os princípios que queremos para o nosso país. Por meio não só de discurso, mas também de ações. Se um ano de atraso foi capaz de promover tamanho prejuízo para o país, o que mais um ano de falta de ação pode provocar?


Esse texto reflete uma opinião pessoal e não a opinião oficial do movimento sobre o assunto. Somos um movimento plural, capaz de acolher diversas de visões.

Guilherme Lichand, paulista, é professor de Economia da Universidade de Zurich.

Joao Francisco Araujo Maria, brasiliense, mestre em politicas publicas pela universidade de Oxford e autor do livro Caminhos para Nova Politica.

José Frederico Lyra Netto, goiano, é co-fundador e coordenador do movimento Acredito. É engenheiro pela Unicamp e mestre em políticas públicas pela universidade de Harvard.

Tabata Amaral de Pontes, paulista, é co-fundadora do movimento Acredito. Co-fundadora e gestora do Movimento Mapa Educação, é formada em Ciências Políticas com curso secundário em Astrofísica pela Universidade de Harvard

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