Como ir além da rua
Por Thiago Lamelo para o ACREDITO
Voltei à Brasília após quase 9 anos. Um pouco porque não consigo passar um dia sequer parado quando estou de férias e achei uma passagem barata e um pouco porque queria reviver a emoção que senti quando fui à Praça dos Três Poderes pela primeira vez, em 2008. Sou ligado em política interna e externa há já bastante tempo e estar nos centro dos três poderes do Brasil foi um sonho realizado na época.
O Brasil, ao contrário daquele ano, se encontra numa situação bem diferente. De estrela emergente em franca ascensão a pior economia do G20 e com pouca perspectiva de melhora no curto prazo. Já se fala em 4 anos de recessão, década perdida ou ainda “pior crise desde 1901”. É claro que o Brasil é melhor hoje do que era em 2008 (ao menos no que se refere a desenvolvimento humano) e muito melhor do era na época da hiperinflação e nas demais grandes recessões de sua história. O que mais impressiona mesmo é a queda relativa: de onde estávamos em 2011, quando Lula começou a erguer “postes”, para onde estamos hoje. Para uma geração que entrou na Universidade e no mercado de trabalho por aquela época do “Brazil takes off”, a frustração é imensa. Para quem entende um pouco de Economia ou Administração, é ainda maior, porque essa crise é quase que exclusivamente provocada por concepções econômicas equivocadas e péssima gestão administrativa, típicas dos políticos populistas que temos por estas bandas.

Costumo dizer que ruim para o Brasil seria crescer 3% ao ano, dado sua renda ainda baixa e seu gigantesco potencial. Crescer -4% é catastrófico. Perder uma década de crescimento e desenvolvimento no auge do bônus demográfico nos coloca muito mais perto da armadilha da mediocridade econômica eterna: envelhecer antes de enriquecer. A cada ano até 2020 ou 2025, a proporção da população economicamente ativa sobre a população total vai aumentar e a partir de então, essa razão passará a diminuir e logo perderemos o fator do crescimento populacional, que vem sendo um dos principais motores de nosso crescimento desde os anos 70. O desafio era chegar a um PIB per capita de ~US$20 mil dólares ao final do período do bônus demográfico, mas não chegaremos nem perto e a partir daí, crescer vai exigir algo que o Brasil falha em fazer há muito tempo: aumentar a produtividade do trabalho.
Mais do que um monte de indicadores ruins, que mais cedo ou tarde, passarão, essa crise é devastadora acima de tudo para o moral nacional, é uma destruidora de perspectivas e sonhos. Cinco anos após começarmos a parecer entrar no rumo certo, chegar ao status de país desenvolvido em um prazo razoável se tornou ainda mais difícil. A única saída será, à partir de 2018, eleger uma série de governos responsáveis e competentes que restaurem a moral do país. A única saída é, portanto, política.
Depois dos gigantescos protestos de junho de 2013, houve uma onda de esperança de mudança política. Pedia-se renovação, mas o que se viu nas eleições de 2014 foi mais do mesmo: velhos caciques se elegendo sem dificuldades em todas as esferas. PT x PSDB nas disputas paulista e nacional. Tirante a relativa ascensão de partidos como o PSB e um brilho fugaz de Marina Silva (renovação?) e uma trágica assunção de figuras conservadoras que, querendo ou não, representam muita gente, como Bolsonaro e Feliciano, vivemos o mesmo deserto de ideias e opções da última década. É absolutamente sintomático que a média de idade dos deputados federais seja de 50 anos, 19 a mais que a média nacional, que São Paulo esteja há 22 anos sob governo do PSDB apesar dos crescentes problemas, que estados como Alagoas e Maranhão, os mais miseráveis do Brasil, ainda se vejam as voltas com os Calheiros, Sarneys e Collors de sempre.
O Brasil nunca esteve tão carente de lideranças, de planos e propostas. O fisiologismo oportunista atingiu seu auge e a acomodação e frivolidade das elites políticas frente à vontade popular condena o país ao subdesenvolvimento e a própria democracia ao descaso geral. Temos um cenário de frustração coletiva, cuidadosamente retroalimentada pela elite política que só serve a seus próprios interesses: enquanto for senso comum que nenhum político presta, que ninguém honesto consegue “chegar lá”, não haverá propensão alguma para se mudar uma palha no nosso sistema político.
Vivemos em uma democracia representativa, onde todas as discussões e reformas relevantes precisam passar pelo poder Legislativo e em seguida, pelo Executivo para se tornarem leis e passarem a ter impacto na sociedade. Parece óbvio e desnecessário pontuar isso, mas me parece que muitos se esquecem que o único caminho para a mudanças políticas é pela própria política institucional e que o mecanismo mais direto para tal são as eleições. De modo que, querendo ou não, dependemos dos políticos, partidos e instituições que adoramos criticar para determinar nosso progresso e nossa omissão do processo político fora da época das eleições e de algumas manifestações pontuais, afasta a possibilidade de mudanças concretas.
Em resumo, se a vontade popular, expressa por meio de protestos, manifestações, movimentos sociais, coletivos, etc. não se traduzir na eleição de representantes alinhados a estas ideias, não há forma da mudança desejada acontecer e a frustração será certa e permanente. Enquanto pessoas éticas, competentes e comprometidas com seus ideais e o país se omitirem da vida pública, os corruptos, aproveitadores e oligarcas se beneficiarão do estado que criaram para seu usufruto. Votar de maneira consciente e manifestar-se pontualmente, considerados pela maioria o último estágio de participação política, eu gostaria que se tornasse o primeiro e mais básico.
Sempre foi muito claro para mim o impacto do estado e da política em nossas vidas. As instituições públicas são as maiores determinantes de um sucesso de uma nação: a garantia do império da lei e dos serviços básicos. Em um país carente como o nosso, onde o governo administra quase 40% da riqueza nacional, eu acredito que o potencial da boa gestão pública é amplamente subestimado. Mais tarde, cursando administração, passei a considerar uma ambição natural me tornar um gestor público. Que administrador ambicioso não gostaria de gerir uma máquina com um orçamento bilionário ou trilionário, onde o principal stakeholder é toda a população? Em minha visão não há trabalho com propósito mais elevado e com maior potencial de impacto do que administrar políticas públicas, aperfeiçoar leis e instituições.
E os comprometidos com o futuro do Brasil precisam se unir, acima de suas posições ideológicas, pela renovação da política, pelas discussões programáticas e pela gestão eficiente de recursos. Acima de tudo, devem aceitar a realidade: precisam de um partido e de um espaço institucional para concretizarem seus planos.
E, acreditar que nenhum partido ou político “presta” é um péssimo começo. Se sentir desencorajado por pessimistas com a política idem. Você vai descobrir que políticos honrados existem e eles podem ser um dos caminhos para você se envolver com a política. Se você não acredita que os partidos dominantes (PT, PSDB, PMDB) têm espaço para você, busque o Novo, busque a Rede ou grupos fora de partidos mas que desejam influenciar em seus programas. Não vai existir uma compatibilidade perfeita, mas afinidades emergirão.
Esse texto reflete uma opinião pessoal e não a opinião oficial do movimento sobre o assunto. Somos um movimento plural, capaz de acolher diversas de visões.
Thiago é paulistano e administrador (pela FEA-USP). Viciado em política e esportes, trabalhou por 4 anos como consultor estratégico para empresas e, mais recentemente, apoiando governos estaduais e municipais a encontrar novas lideranças para suas gestões. Esse ano começara seu mestrado em políticas públicas em Harvard.
