Pelo direito de perder o controle

Eu tinha uma rotina: lia mais, escrevia mais, ria mais com meus amigos e cuidava mais da minha saúde. Tudo era DEMAIS mesmo. Conheci novos sons, novos lugares, era mais ativa na militância e sempre tava com novos amigos.

Por um deslize, joguei tudo pro alto. Perdi o controle. E hoje, assumo sem dor, que a gente perde mesmo o rumo das coisas quando nos deixamos ser controlados por outrem ou por sentimentos que insistimos em chamar de amor.

Parecia amor, mas era falta do amor próprio. Parecia amor, mas era abuso psicológico. Parecia amor, mas era empolgação de uma compra de um produto master do mercado, que depois do prazo de validade, descobrimos que era produto falsificado.

Não era amor porque eu perdi o controle do emponderamento que eu conquistei aos meus 27 anos. Eu já estava formada, já estava em uma profissão que amava. Eu tinha planos para minha primeira viagem internacional e planos para minhas primeiras férias em 10 anos de muito trabalho.

O que parecia, era falso desde o sorriso, a voz mansa, jeito bom que tratava as crianças. Era mentira toda a loucura exacerbada das ex’s. A convivência mostra o cotidiano rude e mentiroso. Se tem uma coisa que não dá pra fugir, é da convivência. Uma hora o olhar torto de quando o pai liga e não quer atender, salta. Uma hora a grosseria com a mãe grita na nossa frente. Uma hora a falta de presença para com os filhos é exaltada com falta de telefonemas.

Uma hora a verdade aparece entre evidências mal guardadas e mentiras mal contadas.

Uma hora a gente olha no espelho e se vê acima do peso, com aparência triste e olhos inchados de tanto chorar, de tanto esperar a fase ruim passar. E se dá conta que a fase ruim não vai passar porque não é um momento, é a verdade nua e crua diante de suas olheiras, é a verdade em seu olhar sem brilho, depois do desemprego, dos abusos psicológicos, dos livros que você não conseguiu terminar de ler, das séries que você deixou de assistir pra acompanhar filmes violentos e sem sentidos ao lado de quem só lhe deu ingratidão.

Uma hora a gente dá conta que perdeu o controle de si. Olhamos bem no fundo do poço e junto com a fé, vem a mola para saltarmos. Ah, ainda bem que nunca é tarde para saltar.

Mas para saltarmos, temos que assumir o direito de perder o controle, recomeçar da onde parou e torcer pela vitória ser breve e o “enquanto isso” ser mais divertido.