O frio e o sorvete

Tô com frio. Esse 926 tá mais gelado do que deveria estar. Ok que nós pedimos ar condicionado nos ônibus, mas não era pra exagerar, né? Parece que eles pensaram: “Vocês querem frio, seus filhos da puta? Então toma!” Meus óculos estão embaçados pelo frio. Tá bom, talvez seja coisa da minha cabeça. Isso aqui não é uma cidadezinha americana no inverno. Isso aqui é o subúrbio do Rio de Janeiro em um domingo ameno de maio. Uma longa e fria viagem de Senador Camará até a Penha.

Estamos quase no ponto final. Acho que aqui já é a Penha, não tenho certeza. Esse bairro tá muito bonitinho pra ser a Penha. “Moça, com licença, a senhora poderia me informar em que bairro estamos?”, pergunto à mulher sentada à minha esquerda, no banco do corredor. Ela responde que estamos na Vila da Penha. Eita, nem sabia que existia um bairro com esse nome. Agradeço e volto a olhar pela janela do ônibus. Ponho meus braços no banco da frente e apoio minha cabeça ali. Como eu queria ter lembrado de pegar um casaco. Essa camisa branca de manga curta é mesma coisa que nada. Logo no dia das mães eu não ouvi o clássico aviso universal das mães: “filho, não esquece o casaco”. E ainda tô de bermuda.

Olho pra uma estação de BRT. Depois um posto de gasolina. O ônibus para num ponto e fica algum tempo por ali, pras pessoas subirem. O posto de gasolina é encoberto por outro ônibus. Um ônibus pequeninho, verde. Não consigo ver o número da linha. Tudo o que eu vejo é uma menina com o cabelo preso em um grosso coque, fones de ouvido finos, brinco de bolinha branca e o que imagino ser uma blusa preta. Ela saboreia um sorvete. Não um picolé, mas um daqueles sorvetes de pote, tipo Wesley. A pazinha é de madeira, old school, não aquelas coloridas de plástico, que quebram facilmente. Os lábios dela são de um leve tom rosado — não sei se por causa de um batom ou por causa do sorvete.

O ônibus dela segue em frente e o meu continua no ponto. Grito mentalmente: “VAI, MOTORISTA, PELO AMOR DE DEUS. METE O PÉ”, mas ele continua parado e os passageiros continuam subindo. Meu ônibus finalmente parte e consegue alcançar o dela. Nossas janelas ficam emparelhadas por uns dois segundos. Nós trocamos um olhar que dura bem mais do que dois segundos. Os ônibus se perdem novamente. E se tocam novamente. Olhares trocados. E se perdem. Penso: “Assim que meu ônibus ultrapassar o dela, vou descer e pegar o ônibus em que ela está.” Fico aguardando minha vez. Meu ônibus finalmente fica na frente do dela. Consigo ver a linha em que ela está: 910, a caminho de Bananal, onde quer que isso seja (sou de Bangu, conheço pouco da Zona Norte, se é que esse lugar fica mesmo na Zona Norte). Me preparo pra descer. Puxo a cigarra e vou pra porta traseira. Feliz e esperançoso, vejo o ônibus dela lá atrás, bem atrás. Terei tempo de pegá-lo. Faço sinal, com um sorriso no rosto. Mas o ônibus vai para a esquerda, se afastando do ponto em que eu tô. E sobe um viaduto. Lá vai o pequenino 910 levando a menina do sorvete. O frio persiste.

Finais alternativos:

[Final 2] Faço sinal, com um sorriso no rosto. A porta se abre na minha frente. Dou boa tarde ao motorista. ainda com o sorriso no rosto. Boto o bilhete único na máquina e sorrio para o R$ 0,00 registrado ali. Passo pela roleta e vou pra onde a menina do sorvete está. Mas ela não está lá. Meu coração acelera. Eu a procuro em todos os bancos, até nos que eu tenho certeza que ela não estava. Há velhinhos lendo jornal, há mães com seus filhos, há namorados aconchegados um no outro. Mas não há menina com o sorvete. A quentura da lataria do ônibus me aquece.

[Final 3] Faço sinal, com um sorriso no rosto. A porta se abre na minha frente. Dou boa tarde ao motorista, ainda sorrindo. Paro na frente da roleta e a vejo. Ela está olhando para mim. Temos o mesmo sorriso no rosto. Boto o bilhete único na máquina e sorrio para o R$ 0,00 registrado ali. Passo pela roleta e vou pra onde a menina do sorvete está. Sento ao seu lado. Ela está terminando o sorvete. “Sabia que era de morango”, digo.