Facilitando com Equidade

Se você tratar as pessoas de forma igualitária hoje, você pode estar reproduzindo nossa história de iniquidade.

Semana passada eu me juntei à comunidade da Arte de Anfitriar para explorar como as nossas identidades pessoais e coletivas estão presentes e são fonte de privilégio e diferenças de poder.

Quanto essas dinâmicas de poder e privilégio impactam o nosso trabalho quando estamos anfitriando um grupo?

Eu vejo nossa comunidade com um foco muito grande em facilitar participação e vindo de uma história de práticas dialógicas, mas até agora parecia que dinâmicas de poder e política nunca tinham sido temas centrais de conversa.

O que são identidades pessoais e coletivas e que papel elas têm em um trabalho de grupo?

Identidades são os grupos em que estamos associados seja pelas convenções da sociedade ou por escolha pessoal como negro/branco, homem/mulher, gay/hetero, etc.

Neste encontro nós desafiamos o pressuposto de que nossas práticas dialógicas, mesmo que gerando estruturas de participação igualitária, automaticamente também iriam gerar um espaço de horizontalidade e equidade.

Desafiamos esse pressuposto olhando para a diferença fundamental entre equidade e igualdade.

Quando e se olhamos para pessoas sentadas em círculo e assumimos que todos estão no mesmo patamar, podemos estar cegamente reproduzindo as dinâmicas de poder que estão jogando por debaixo do pano.

No fim das contas algumas pessoas, baseadas em suas identidades, tem mais privilégio que outras. Ter igualdade, neste caso, reforça o status quo de iniquidade nos grupos, sistemas e sociedade.

Não tivemos que ir muito longe para perceber que muitas das vezes algumas identidades nem estão representadas no círculo ou tem pouca representação. Mesmo estando presentes, normalmente há falta de percepção de como ser membro de um grupo de certa identidade pode gerar um início de conversa em que se está em uma posição desprivilegiada ou até sentindo que o espaço não é imediatamente seguro.

Estar atento a estas dinâmicas são fundamentais para aquele que está anfitriando ou facilitando. Claro que há mais o que fazer — como podemos ser melhores anfitriões levando em conta esta realidade?

Este é um trabalho para ser feito relacionando-se com outros. Isso faz com que anfitriar espaços para outros seja um passo fundamental para mudar a iniquidade dos dias de hoje. Para fazer isso melhor levantei alguns pontos que achei chave.

Podemos anfitriar mais conscientemente através de

  1. Primeiro e mais central, trabalhar em nossas próprias identidades e como elas nos impactam. Especialmente para os que são detentores de privilégio e muitas vezes o exercem inconscientemente. Isso é bem provável se você se enquadra em um ou mais dos grupos: homem, branco, heterossexual, entre outros que são consideramos a norma ou que detém privilégios automáticos em nossa sociedade atual.
  2. Junte-se a conversas com outros — praticantes na sua área ou não — sobre o que significa viver como membro de um grupo dominate ou subordinado.
  3. Anfitrie/Facilite em parceria com colegas que são membros de outras identidades e fiquem atentos juntos nas dinâmicas que automaticamente se instauram quando nos encontramos.
  4. Traga à tona sempre que achar apropriado este tema, especialmente quando você presencia estas dinâmicas acontecendo, seja como membro ou como facilitador de um grupo.

O que mais você adicionaria?

Essa é uma conversa central à prática de criar e anfitriar espaços para conversas que importam. Como podemos exercitá-la para uma prática de anfitriar mais consciente?


Originalmente publicada em augustocuginotti.com.