Como chegamos a isso?

Minhas relações têm data de validade

Sempre tiveram e sempre terão.

Algumas pessoas não sabem como é perder alguém pro evitável — menos trágico que uma enfermidade, mas provavelmente mais frustrante.

Eu criei uma lenda quanto a mim mesma: se passo o réveillon com alguém, no mesmo ano perderei contato com essa pessoa.

É uma tradição que se repete, juro que involuntariamente. Na primeira vez, um casal de amigos que jurou que eu era uma destruidora de lares. Na outra, amigos que também eram colegas de trabalho na produtora. Ainda não tenho certeza quanto ao ano passado, mas acho que nesse eu já tenho mais uma candidata para aumentar a distância.

Tive uma melhor amiga por pouco mais de 15 anos. Sempre fomos vizinhas e brincávamos que já nos conhecíamos dentro das barrigas de nossas mães. Já lhe fiz bolos de aniversário e ovos de Páscoa, pois sua família não comemorava, já me deu uma hamster que foi meu amor por 2 anos. Um dia, ela precisou se mudar para Ilhéus por conta de trabalho e estudos do pai. Chegamos a trocar cartas - após tantos meses em que nunca soube seu endereço, resolveu me escrever. Quando voltou pra cá, acabou entrando na mesma escola que eu uns anos depois, onde apresentei a algumas pessoas e mostrei lugares, mas dizia a todos que a abandonei. Tentava me evangelizar, eu respondia que a bíblia foi reescrita demais, mas a deixava segurar em mim quando não alcançava as barras do metrô no caminho pra escola. Nos distanciamos e disse à própria mãe que eu a tratava mal. Mudou então de prédio, e sequer me aceitou no facebook.

Meus desamores já são sabidos por todos os que me conhecem em algum momento ou lêem qualquer texto meu.

Talvez qualquer relação comigo já esteja fadada ao fracasso. Eu mudei tanto de companhias, sempre com um motivo ruim ou escolha nunca minha, que eu já me pego aqui, olhando para minha xícara de chá sem açúcar, chorando por não me encaixar. Não fui feita nem pra socializar, nem pra me distanciar. Qualquer foto, qualquer gatilho, qualquer lembrança, qualquer distância me dói. A separação lenta ou num estopim, uma gota d’água qualquer, uma saudade que não cessa. Antes eu insistia, agora apenas desisto. Egocêntrica como sou, só consigo me ver como dispensável, descartável, um passatempo.

Dizem que um dia acostuma, anestesia. Continuo no aguardo, enquanto imagino o futuro de respostas cada vez mais esparsas e já antecipo a separação de quem mal conheço.

Você me disse querer retomar a anizade e citou como me adora, mas seu contato ainda está sem foto aqui, porque você sequer adiciona meu número de volta à sua agenda.

Acho que não nasci pra essa vida de idas e vindas.