Eu odeio quando nossos olhares se cruzam

Aliás, eu deveria ir todos os dias. Sabe como é, “recomendação médica”. Mudei de horário; não por sua causa, mas pra aproveitar a carona. E é bom não ver seu rosto ou ouvir sua voz por lá, de vez em quando.

Não sei se é o caso hoje. Será que você lembra? Faz meio ano, e eu ainda sim.

Uns três meses me olhando, dando sorrisos, piscadinhas, chamando pra conversar ou pra ficar até o fim do expediente. Era tão óbvio o interesse apenas superficial, pra que levar todo esse tempo?

Até que, no caminho pra casa, mais tarde que o habitual e alterada pelo álcool, um pouco ébria e de férias, feliz por ter visto uma amiga que mora a uma curta viagem de avião ou uma noite inteira de ônibus, nos esbarramos.

Aqui eu entro em discordância comigo mesma: ele se aproveitou do meu estado e/ou eu queria isso? Não sei bem. Mas tenho ciência de que perco a cognição sob entorpecentes e no momento pensei apenas um “pro inferno, que mais tenho a perder?!”.

Pegou meu número porque insisti. Não, eu não esperava um relacionamento disso, só uns encontros casuais. Nem chegamos a tanto — parou de falar comigo em dois dias. Quando voltou a aparecer, só onde já o via sempre, também fingi que nada tinha acontecido, mesmo querendo quebrar os dentes daquele sorriso orgulhoso do feito que conseguiu.

Em pouco tempo, deixei de conversar e de cumprimentar; sorte a minha que basta colocar minha digital na catraca para entrar. Acho que seus dois colegas que eu também tinha feito amizade mudaram de emprego, o que me facilita, apesar de gostar deles (meu primeiro interesse — ou alvo — nem era esse que continua lá).

Assim que minhas aulas voltarem, também retorno a aparecer à tarde e às vezes pegá-lo me fitando ou o contrário. Do jeito que me levou com maestria à área de funcionários do shopping e sua escada de emergência, é provável que já tenha experiência nisso, por mais que pudéssemos, bem, ser presos.

Estou cultivando não guardar mais nenhuma raiva, apesar de ouvir sua voz ainda me dar nos nervos vez ou outra. Talvez eu me odeie também pelo que fiz, afinal de contas, não sou mais nenhuma inocente ou criança.

Agora tenho um adjetivo, não pra mim, mas sim a ele. Coitado. Cede aos desejos do seu corpo mesmo que leve meses pra conseguir algo tão sem valor. Gasta seu tempo, talvez até seu dinheiro, sua lábia e tudo mais, só pra conseguir um buraco; é fútil. E não se importa com o sentimento alheio, de como alguém pode se reconhecer vazia após um momento e descarte desses.

E nada sabe do amor que sou capaz de dar, nem das noites melhores numa cama finalizadas com abraço e cafuné. Das promessas, das palavras carinhosas e dos elogios além do corpo. Da vontade de estar junto e de planejar o futuro.

Coitado.

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