“Você precisa procurar ajuda”

É fácil falar. Eu mesma digo isso aos outros, quando estou num dia bom.


Hoje eu fui pro banheiro da faculdade chorar, sem motivo explícito. Não foi a primeira vez e provavelmente também não a última. Fugi da aula, voltei pra casa e continuei assim por todo o caminho.

Na segunda-feira, recebi uma mensagem de uma professora. Veja bem: só estou cumprindo duas matérias nesse semestre, e então só deverei mais 3 e o trabalho de conclusão — infelizmente isso ainda me tomará esse ano e o próximo, mas o diploma não é o assunto aqui. Avisou que atendeu meu grupo de trabalho, eu respondi que não fui por estar doente. Aquelas mentirinhas brancas que contamos.

Não tenho vontade de frequentar as aulas. Talvez pelos tantos anos perdidos, talvez pela saturação ou mesmo pelos poucos rostos conhecidos no prédio. Outra opção é por ter parado os remédios.

Na verdade, eu ainda me sentia assim, ainda tive crise de choro por lá no auge do meu tratamento, na dose máxima. Contei ao meu psiquiatra: era como se eu estivesse tomando pílulas de farinha, sem efeito. A semana da tpm, então, era certeira. Com problemas de coagulação e sem melhora, meu pedido foi de diminuir a medicação. Ele respondeu que “querer não é poder” e deu-me ainda outro remédio. Nunca mais voltei.

Parei sozinha. Levei alguns meses, a cabeça voltou a ser mais rápida, criativa e… sensível. Abracei, afinal, talvez isso seja eu. Diminuí aos poucos a dose, espacei suas tomadas, fiz o normalmente recomendado, apesar de ninguém me recomendar. Tive muitas tonturas estranhas, mas passou.

Minha história com antidepressivos começou assim que voltei a ter convênio médico e investigar a enxaqueca persistente. Culparam a pílula, tirei por uns meses, o ovário policístico deu as caras e não tive nenhuma melhora. O neurologista me deu ISRS, IRAS, tricíclicos; tive benefícios passageiros. Me recomendou terapia e eu nunca botei fé.

Certa vez, ainda nesse tratamento, fui ao pronto-socorro tendo espamos. O médico de lá jurou que era a fluoxetina associada à amitriptilina. Obviamente, parei de tomar qualquer coisa.

Tentei ir ao psicólogo do mesmo hospital. Ele dizia que eu não tinha nada, e muito mais falava de si. Tentou me juntar com um outro paciente, até passou meu email para ele. Dizia que eu era ansiosa quando na verdade eu esfregava as mãos por frio, e finalmente se preocupou quando eu contei que me cortava. Não apareci mais.

Algum tempo depois, em outra fase ruim, procurei psiquiatras. Cheguei a receber uma receita de sertralina de uma médica que me perguntou pouco e nunca tomei. Fui a outro que afirmou que eu não tinha nada e no mesmo momento comecei a chorar, então me deu uma caixa de citalopram. Nem preciso dizer que não voltei.

Encontrei uma médica que conseguiu me adaptar ao combo de venlafaxina e trazodona. Me dizia que medicamento genérico não prestava, eu me sentia culpada por gastar aquela quantia dos meus pais comigo. As doses mudavam, subiam e desciam, tudo na experimentação de como eu estava. Me acompanhou por 2 anos até sair do convênio. Recomendou que eu procurasse a psicologia.

Conversei por alguns meses com uma psicóloga. Tinha suas dúvidas se eu era bipolar ou depressiva, mas optou pelo segundo por eu não ter raiva e agressividade. Independente do diagnóstico, ela me perguntava sobre minha semana e falava de si. Além de ter uns preconceitos sobre meus sentimentos, creio que eu saiba mais do filho dela que ela de mim.

E só de pensar nisso, eu não quero voltar, procurar, ter acompanhamento.

Imagino que qualquer pessoa não goste de perder tempo semanal e mensalmente com algo que não vê efeito, e por vezes até parece pior ou mais frustrante. Quem dirá uma pessoa deprimida, que no momento não está com vontade nem de levantar para ver seus amigos e comemorar seu próprio aniversário.

Eu sei que eu preciso de terapia. Crise de choro não é algo normal (ou não deveria ser). Mas não é nada fácil — e não tenho a mínima vontade.

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