Eu vou ser a mulher do futuro.
Eu vou ser a mulher que vai ler pro bebê uma semana antes dele sequer poder escutar, que vai arranjar nichos azul-marinho e por os livros em ordem alfabética, pra compensar toda a vida da mulher desorganizada, fingir que aquilo sempre foi rotina. A mulher que faz a papinha com tudo fresquinho da feira, vou ser a mulher que vai encontrar a feira.
Eu vou ser a mulher que sabe exatamente que roupa comprar e antes de qualquer coisa, pensa se não seria melhor manter o guarda roupa de sempre que pode ou não ter trinta-e-tantas peças esquecidas e com cheiro de memória. A mulher que não faz o sinal de chamar o ônibus quando vem o metrô, que não começa a abrir os livros no meio da livraria e que tem velas perfumadas pela casa. A mulher que tem uns vasos de plantas suspensos na varanda cor-de-madeira. A mulher que faz como todo cidadão brasileiro de classe média e viaja pra Porto, mas na verdade é só pela arquitetura das casas europeias das quais não entendo nada. Certo, vou ser a mulher que sabe como funciona a arquitetura das casas europeias de Porto. A mulher do futuro, que acha clichê essa conversa de futuro porque tem medo do próprio. Por enquanto, a mulher de algum futuro pode se contentar em acordar pela manhã e se sentir alguma mulher, sem necessidade de adjetivo acompanhando.
