Um pouco sobre a Ancine, A Redação do ENEM, o Acesso ao Cinema e a Liberdade

Adão Filho
Nov 4 · 5 min read

O tema da redação do ENEM deste ano me deixou intrigado quando abri as redes sociais depois daquela soneca boa depois do almoço.

Tanto no Twitter como no WhatsApp a manchete era “Depois de destruir a ANCINE agora o Governo Bolsonaro fala de democratização do Cinema”.

Eu nunca me senti tão em paz comigo mesmo nos últimos dias por não fazer o Exame Nacional do Ensino Médio. Eu acredito que todas as minhas opiniões sobre o tema são “socialmente não-aceitas” pela maioria dos corretores. Visto que uma dos requisitos para obter uma boa nota na redação é a famosa Intervenção Estatal no problema.

Eu já acredito que a democratização do cinema se obtêm no oposto: no não-fazer do Estado. Mas antes de entrar no mérito, devemos definir o que é cinema. Estamos falando de Filmes ou de estrutura? Porque eu posso assistir um filme no meu serviço de streaming no conforto da minha casa ou ir ao Shopping mais próximo e assistir os filmes em cartaz.

Se o alvo for simplesmente Estrutura, tudo se passa na Liberdade Econômica. E nos Rankings mundiais estamos na 150ª colocação de acordo com o 2019 Index of Economy Freedom. Apenas isso e acabou. A maior parte das cidades brasileiras não possuem cinemas, já que o risco empresarial é imenso de construir um Cinema (empreendimento de alto risco) e se torna extremamente inviável na maioria das cidades, somente nos grandes centros urbanos é uma atividade realmente rentável.

Agora se estamos falando de Filmes, os argumentos um tanto ignorantes no que tange a Ancine como garantidora do Cinema, a solução já existe e já está em curso, sendo limitada obviamente pelo poder Estatal. O que democratizou o Cinema no mundo todo foi a Tecnologia e Internet. Antigamente, um dos grandes problemas para os Cineastas, estudantes e aficionados era o acesso aos filmes antigos da década de 50, 40, 30... As cópias físicas eram muito difíceis, tanto que foi feito um grande esforço para encontrar os originais do clássico Viagem à Lua de George Méliès, filme de 1902 considerado como o primeiro filme de ficção científica da história.

As revistas e sites especializados nos últimos 10 anos se atualizaram bastante, como a tecnologia e toda a pesquisa cinematográfica avançou muito, houve uma grande restauração e disponibilidade de filmes que outrora eram inacessíveis para todo mundo. Em 1980 era impossível eu ter acesso a todos os filmes do Hitchcock, hoje a internet permite que possamos ter acesso num instante. A própria pirataria ajudou muito nisso, acredite. Alguns filmes que são impossíveis de serem encontrados nos serviços de streaming em sites de downloads estão lá esperando pelo público. Claro que recentemente a pirataria de cinema diminuiu consideravelmente em razão dos serviços de streaming, falindo as antigas e saudosas locadoras, mas nos entregando bibliotecas enormes de filmes clássicos e recentes. É evidente que o Estado vem buscando uma intervenção, porque o Estado não pode ver algo crescendo que quer meter a mão, mas beleza.

Acho que já deu para ficar bem claro que não foi simplesmente o Estado que nos últimos 10 anos vem democratizando o Cinema para todo mundo. É a própria internet, é quase o oposto. Não somente essa forma de arte, como outras formas de arte foram democratizada pelo capitalismo malvadão desenfreado: A Literatura cresceu demais recentemente graças à internet e ao streaming. Hoje com 10 reais por mês você pode ter uma biblioteca em seu tablet pelo Amazon Prime. Somente com míseros 10 reais eu posso ler uma imensidão de HQs da DC ou da Marvel, os livros de fantasia e romances policiais que eu gosto. Há 20 anos eu teria que gastar uma fortuna para obter isso de forma física. Sem contar que Sites como o Wattpad e o Bookess que revelam diversos talentos na arte da escrita e formam novos leitores toda hora. E adivinhem? Isso tudo não é regulado pelo Estado e nem sequer foi uma ideia do mesmo obviamente. Um negócio de rico (livros) se tornou popular por uma sacada.

Acho que já deu pra entender bem onde quero chegar. Artes como Literatura e Cinema já vêm se popularizando naturalmente conforme o desenvolvimento da tecnologia e sacadas do capitalismo malvadão.

Agora eu tenho que ouvir o papo de Ancine garantidora do Cinema Nacional e todo esse bla bla bla. Olha, eu não consigo enxergar nenhum argumento ético-utilitarista para sustentar a existência desta agência reguladora. Primeiro que pela utilidade do negócio simplesmente o argumento vai por terra por dar prejuízo. Até outros tempos, o orçamento da ancine era cerca de 1 bilhão de reais, o que não era troco de pinga, e caiu para cerca de 700 milhões. E pelos dados oficiais, o investimento Estatal de cinema dá prejuízo.

Se o argumento for “se acabar com a ancine vai parar de ter produção X” significa que não vende ingresso e se sustenta apenas com subsídio estatal, é mais um motivo que não faz sentido a existência dessa agência reguladora.

E eticamente, o enviesamento político de cultura já é errado em si. Não importa se estamos falando de Lula, Bolsonaro, FHC, Jânio Quadros… Eticamente, o Estado não deve gastar dinheiro com obras audiovisuais.

Não me entenda mal, eu gosto de Cinema Brasileiro. Alguns filmes nacionais estão no meu coração: Tropa de Elite, Cidade de Deus, 2 Coelhos, Auto da Compadecida, Bingo… vários filmes sensacionais foram lançados aqui, mas isso não dá o Direito do Estado sugar o dinheiro do contribuinte para arbitrariamente investir em obras audiovisuais.

Não importa também o argumento de que “Se na Coréia do Sul eles investem em Cultura(OBS¹: K-Pop pra mim nem deveria ser considerado cultura, mas beleza) e são bem sucedidos. Então, mesmo se um determinado negócio traz lucro em uma determinada parte do mundo que funcionará aqui, o mesmo argumento serve para quem quer argumentar sobre Porte/Posse de armas comparando com outros países. Trata-se claro de uma falácia. E também, outros negócios eticamente condenáveis já deram muito lucro, como o tráfico de Escravos e sempre foi e será antiético. E nem é o caso do Brasil, visto que o Estado já arca prejuízo.

Diante dos fatos expostos, (OBS² ah que saudade das minhas redações do Ensino Médio) é notório que a democratização da cultura está longe de passar pelo crivo Estatal, isso no Cinema, na Literatura, no que for. Mas é uma pena que a opinião preponderante (será?) pareça ser outra. De qualquer maneira, eu quero muito que a Ancine gaste seus 700 milhões num ultra-blockbuster chamado “Lula 2 : O Inimigo Agora é Outro” e assim o Bozo possa acabar com isso de uma vez.

Escritor e Podcaster nas horas vagas. Dono do www.proximadimensao.com.br

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