300 segundos
“Amor, pode nos dar 5 minutos?”
“Como assim? Fora do carro?”
“É.”
E saí do carro para uma brisa gostosa, agradável, das raras noites de inverno do Rio de Janeiro. O céu estava limpo, então as poucas luzes do estacionamento deixavam vazar algumas estrelas. A lua lá, crescente, como um sorriso do gato de Cheshire, refletindo em pensamentos a mesma curiosidade felina do meu olhar.
Claramente, não é anormal a uma relação poliamorosa de qualquer configuração que dois vértices tenham algo a conversar. O estranhamento inicial era mais pelo quão nova era a situação, como ocorreu. E ali, do lado de fora do carro e dos vidros quase negros, eu era cercado pelo silêncio da cidade, que nunca o é realmente. O ruído de fundo da humanidade embalando meus pensamentos.
Se a dois, toda conversa traz uma necessidade óbvia a olho nu — ainda que muitas vezes casais prefiram protelar o inevitável — , relacionar-se com mais de uma pessoa te dá brechas, um subterfúgio sutil em que há para onde — para quem — fugir dos momentos difíceis de enfrentamento. Não estou falando nem de briga, mas daquelas coisas que você nem sempre quer ouvir e, por amor, alguém precisa lhe dizer.
Dentro do casamento, sempre tivemos isso estabelecido de forma bem pragmática, há uma pontuação específica para começar conversas assim: “Ouça com bons ouvidos…” Foi ela quem me apresentou a esse hábito e hoje o considero ótimo — o quão possa ser o aviso de uma granada voando na sua direção, ao menos. Mas estamos falando de anos a mais de convivência, um esmerilhando arestas do outro. Acho que faz parte de todo relacionamento.
E ainda que de fora eu tenha tido bem mais que 5 minutos pra pensar em tudo que poderia estar fugindo ao controle naquele exato momento, pensava em como aquele quase-silêncio era interessante. Em como eu sempre fazia a mesma associação da lua crescente com um sorriso de uma personagem da infância. Fiquei querendo que houvesse ainda menos luzes à minha volta, pra ter só um pouco a mais de estrelas.
O que quer que saísse do carro, pertencia àquelas duas mulheres. Mesmo eu podendo fantasiar certezas de que aquela conversa em partes mencionasse meu nome — um Teste de Bechdel na vida real? — , nem me pertenceria pensar a respeito mais do que o que as duas viriam se sentir à vontade de partilhar comigo, depois.
Nem ciúmes, sequer ansiedade. Aquele “silêncio” trazia um tipo muito particular — e novo — de paz. Sem querer, percebia o quanto pessoas — eu — lutam tanto por controle, em relacionamentos.

Desculpem, amores, fazer de um momento das duas um ato narcisista de auto-análise, do lado de fora do carro.
E obrigado.