Greve

Era uma manhã como qualquer outra. As pessoas vivendo, andando, trabalhando, esforçando-se no sorriso costumeiro. Um dia comum, indefinido, sobre o qual só se diz com certeza que não era um fim de semana. Estava longe de feriados e quaisquer festividades de calendário. Apenas um dia e nada mais de muito especial… até aquela notícia.

Foi anunciado sem grandes alardes, por medo que o caos tomasse as ruas. Uma pequena frase, nas estações de rádio, mascarada como algo tão comum quanto um “boletim do trânsito”. Uma chamada de plantão bem curta, em poucas redes de televisão, antes do horário do almoço. O resultado, no entanto, foi inevitável: se espalhou rapidamente, das bocas dos primeiros a ouvir. Em questão de horas, aquela informação já tinha tomado cada rua, cada papo de bar e restaurante, cada loja, recepção e banca de jornal. As pessoas trocavam olhares, mais do que palavras, e enquanto alguns pareciam começar a evitar o burburinho e até mesmo se esconder, foi-se amontoando gente pelas praças, corredores e calçadas. Pelas expressões, percebia-se que ainda não sabiam o que pensar a respeito. Era tudo muito repentino e um bocado difícil de acreditar.

O dia passou com muita conversa e poucas conclusões, mas a noite foi de silêncio. Famílias ao redor de suas mesas, caladas, como se houvesse o risco de o primeiro a abrir a boca ter a obrigação de falar no assunto. Mas foi na manhã seguinte, enquanto tomavam o café da manhã, que as pessoas conseguiram tirar conclusões: era o fim do mundo para alguns, mas a alegria de tantos outros. Nem 24 horas desde o anunciado e as mudanças se fizeram claras. Todos começaram a trabalhar mais e melhor, fossem motivados pelo medo ou pela euforia de novas possibilidades. E, aliás, no passar de uma semana essa divisão se tornaria bem clara: os esperançosos pareciam comemorar e torcer como se fosse Copa do Mundo, enquanto os temerosos encolhiam-se cada vez mais, pelos cantos.

Onde quer que se olhasse, parecia que tudo havia entrado em perfeita sincronia. Burocratas, legislativos e judiciários trabalhando o tempo que fosse preciso para dar força a uma democracia antes moribunda. Não era carnaval, mas todos pareciam ter decidido esquecer as diferenças e a intolerância costumeiras. Na televisão, o rosto do presidente, por baixo de sorrisos amarelos e gotas de suor, se apressando em anunciar uma nova era e tomando para si o crédito pelo noticiado. Poucos acreditaram, mas pareciam não se importar e até se esqueceram de dizer à majestade que ela estava nua. Creditaram a falta de roupas de vossa excelência ao nervosismo que tomara conta da capital do país. Lá, como em todos os cantos da nação, começavam a se quebrar os escusos pactos de não-agressão entre criminosos e agentes da lei. O medo de poucos, o alívio de muitos.
E mesmo tempos depois, ninguém soube ainda o porquê nem como aconteceu, mas foi noticiado naquela fatídica manhã: a palavra CORRUPÇÃO tinha decidido entrar em greve.

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