Meia luz

O som das correntes é quase canção de ninar. Cada volta de couro e o metal das fivelas sendo toda a carícia à pele. Sem vendas. É noite de meia-luz, não escuridão.

Há um instinto defensivo, sempre, a se combater. Cada golpe, tapa, o cantar de açoites à pele tirando as coxas do caminho, até que cordas e couro e submissão a imobilizem. Até que a vontade quebrada se espelhe pra fora de olhares vagos… de olhos opacos, que não mais precisam lutar contra o impulso de buscar os do Dono.

É quando no suspiro arrancado à ponta de cada golpe, vem gratidão. A compreensão de que o desejo do Mestre é esse sadismo, expresso em cada linha e marca e lanho que pulsa à pele. Mesmo onde de tão forte o impulso, o vermelho é quase sangue rompendo a pele.

A submissa entende (anseia) que quando restar algo além da dor intensa, é um prazer que será dado e tomado em seguida. No transbordar das sensações.

Mas a noite é de meia-luz… e quis Ele o vermelho de um último capricho. O calor que lhe escorre e vai tomando a pele é uma dor que não passa, só endurece.

É agridoce o quanto agora tantas amarras e todo o couro, as fitas e correntes que a prendem imóvel pareçam cuidar… pois no tremor que segue cada gemido de prazer, a dor é imensa, descendo lenta. Enrijecendo onde chega.

Ainda mais agridoce, a permissão para o teu gozo. Para ceder o controle e se entregar. A crueldade de ouvir que cada gemido de prazer venha decorado de mais essa dor.

“Agradeça. Boa menina.” Teu prazer à meia-luz.

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