Pelo direito de ser puta…

Em uma era longínqua da humanidade, um adolescente matava aulas do turno da tarde com os amiguinhos pra passar num lugar hoje mítico chamado “locadora” e pegar emprestado (por compensação financeira) filmes pra ver na sala da casa de um deles. Ei, ao menos já era DVD, quando nossa história começa e todo mundo forma aquele semi-círculo com uma panela de brigadeiro e umas tantas colheres, entre a platéia e a tela. O filme era “Procura-se Amy”, de Kevin Smith.

Tentando não dar spoilers (impossível), o momento de maior tensão da coisa é quando o protagonista põe em xeque o passado (incomum e) sexualmente ativo da moça e isso causa conflitos com tons de “mas fez com eles e não vai fazer comigo?” Pois é… aquele eu adolescente foi a única pessoa do recinto a julgar o cara, não a mulher. Revendo anos depois, a narrativa tão claramente empurra o espectador a questionar o protagonista que ainda me espanto com o quanto o status quo ainda força a questão na outra direção, como naquela tarde. Provavelmente a atuação do Ben Affleck não ajudou muito, também.

Mas a verdade é que em pleno 2015 ainda se lida muito com frases (pensamentos) como “A mulher pode fazer o que ela quiser… Mas depois, que agüente.” Veja bem, a primeira parte dessa sentença está corretíssima. Já o que segue, invalida completamente a suposta liberdade proposta, condicionando-a ao que quer que o autor considere justa punição pelo “que ela quiser”. E sabe o pior? Essa questão afeta e limita todas as partes envolvidas, não apenas um gênero.

De quê, afinal, importa o que essa ou aquela pessoa tenha feito, passado, querido, aproveitado, antes? A única coisa que ela precisa ter resguardado, que afete quem quer que surja ou qualquer nova relação é a própria saúde. E mesmo um descuido nesse sentido terá mudado apenas as precauções a se tomar, mas não impede uma vida plena a dois, três, quantos forem… Lavou, tá novo. E se a questão acaba surgindo com muito mais peso para o gênero feminino, é apenas por que culturamente o homem tem direito (quase o dever) de ser promíscuo. Mas, sinceramente, indifere o lado quando a real questão é: quem é você, para julgar a pessoa que não está roubando, matando nem cerceando direitos alheios e paga seus impostos?

Mais insidioso que o julgamento em si é que esse pensamento de meio século atrás torna todos prisioneiros. Você não pode desejar fora da caixa. Se deseja não pode falar. Se gosta, guarda para si. Gostar (e amar) acaba virando isso de se podar pra poupar o outro, sem nunca nem ter a chance de descobrir que de repente esse outro queria (ou até mesmo já fez!) o mesmo (ou pior). Porque vai que de repente uma antiga fantasia/aventura vira julgamento ou, quem sabe, cobrança. Como no filme do começo deste texto, talvez o pior resultado seja um ressentido “fez com outros e não faz comigo?”. A raiz da questão permanece uma só: por medo de ser pouco convencional, todo mundo se poda e as tantas possibilidades não crescem.

Não estou dizendo que todo mundo vai sair querendo (ou necessariamente queira) as fantasias e loucuras e ménages e depravações mais loucas, liberais e suadas… mas todo mundo deveria ter esse direito, aliado ao direito de dizer não. “Se resguardar” não deveria ser uma obrigação a ninguém, mas uma escolha. E é muito fácil, quando confrontado, falar “Eu acho que cada um faz o que quiser…” mas quase sempre isso vem seguido de um tão hipócrita “… mas depois agüenta”, como se estar confortável com a própria sexualidade fosse sim algum crime.

E aí você vai e não faz idéia de quanto os teus pré-requisitos (e preconceitos) te podam de explorar todos os desejos e, principalemente, as possibilidades do outro.

Originally published at cafeetapas.com on October 8, 2015.

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