A casa mais antiga da Azenha

Por: Clarissa Müller

O bairro Azenha é peça fundamental na história da cidade de Porto Alegre e já sofreu muitas mudanças ao longo de seus 256 anos. Ruas tiveram seus nomes trocados, casas se transformaram em prédios e tataravós se tornaram história. Aliás, isso o bairro conserva: história de seus moradores que amam o lugar onde nasceram, cresceram e criaram seus filhos.

Entrada da chácara onde fica a casa mais antiga da Azenha

Dona Ingeborg Kircher Niederhageböck é conhecida entre os vizinhos simplesmente como Inge. Seu avô, Hugo Metzler, quando veio da Alemanha em busca de trabalho, acabou alugando, e logo comprando, uma chácara no bairro, “antes de 1890”, como se lembra a senhora. A propriedade ia desde a Av. Bento Gonçalves até a Av. Oscar Pereira. Foi seu avô também que abriu a rua Onofre Pires, que hoje dá acesso à casa da chácara que segue em pé. “Ele abriu essa rua e ela se chamava Travessa Vitória, em homenagem à mãe dele”, conta a velhinha de 87 anos.

Dona Inge sentada em frente a sua varanda

Ao estilo de fazenda, a casa da chácara é conhecida como a mais antiga do bairro pelos vizinhos e foi toda construída por escravos, conservando até os dias atuais o telhado “feito nas coxas”. Por fora, é de material, mas por dentro, tem suas repartições de madeira, dando a ela um ar de chalé. A casa se mantém a mesma desde sua construção. O que mudou foi a varanda construída por Metzler e as árvores também plantadas por ele, hoje com vários metros de altura. Outra mudança são as grades que agora cercam a residência.

O historiador Ângelo Constantino confirma que a estrutura é típica do estilo português. As calhas no telhado indicam certa condição financeira da família que a construiu. Ele também afirma a existências de escravos na região no final do século XVIII, início do século XIX, o que traz indícios que sua construção pode ter sido anterior à data lembrada por dona Inge.

Av. Oscar Pereira em 1900

Durante o período entre esses séculos, Constantino ainda confirma que a região era formada por chácaras, pois a cidade ainda não havia avançado até o local. “O arroio era o limite da cidade na época”, explica o historiador. Apesar de não poder dizer com certeza se a casa é de fato a mais antiga da região, Constantino acredita que é possível ser, se não a mais antiga, uma das únicas casas da época ainda em pé.

Inge conta que seu avô era a frente de seu tempo e, por isso, desde que comprou a chácara tratou de construir um poço artesiano, um catavento e um quarto de banho. “Ele era um homem muito moderno! WC era uma coisa muito rara. E tinha banheira de zinco com água quente”, conta a senhora orgulhosa.

Casa de banho, do lado de fora da casa

O próprio Hugo Metzler relata em sua autobiografia, Pátria e Origem, que comandou o jornal Deutsches Volksblatt, publicação alemã que circulou a partir de 10 de março de 1871, com a missão de apresentar ao público as notícias mais recentes e os acontecimentos de natureza política, científica e religiosa, de forma mais verdadeira e imparcial. Metzler assumiu como editor em 1893, quando a redação ficava na Typographia do Centro, no centro de Porto Alegre.

Junto com o aumento de leitores, o jornal passou a estar mais exposto aos seus opositores. Em 1895, italianos arrombaram e depredaram as oficinas da Typographia do Centro, enraivecidos com a postura do jornal. Em campanha contra a maçonaria, Metzler havia escrito um duro artigo sobre Giuseppe Garibaldi, que era maçom. O Deutsches Volksblatt chegava a uma tiragem de 6 mil exemplares, tornando-se um diário.

Metzler morreu em 1929, mas o jornal seguiu até 1947, quando passou a se chamar Gazeta Popular. Sobre a época, Inge sabe pouco: “Sei que minha mãe ia de carruagem até o escritório do vô, que ficava na Rua Dr. Flores”.

Hugo Metzler com a esposa e a filha, mãe de dona Inge

Parte do terreno da chácara foi cedida ao cemitério da Santa Casa, região que hoje é conhecida pela grande quantidade de cemitério, onde o avô de Inge foi enterrado. “Todo o sábado ao ia ao cemitério. Meu avô estava enterrado lá e ficava dentro da minha casa, então, era a minha casa”, explica.

Cine Castello, em 1939, na Avenida da Azenha

Para se divertir quando pequena, Inge gostava de ir ao cinema e trocava o dinheiro da passagem de volta da escola para casa por sorvete. “A Azenha tinha a padaria Esteves e nós íamos comprar pão descalços. Tinha o Castello (Cinema) também. Era muito bom. A mãe era liberal, então a gente ia para a escola alemã de Maria, ao lado da igreja São José, na rua São Raphael (hoje Avenida Alberto Bins), e de tarde a gente ia bordar. Não existia a Av. João Pessoa, só a Av. Azenha e a chácara dos Lemos alugava parte do terreno para um açougueiro que molhava o caminho com água. Então, quando a gente voltava da escola, pescávamos girinos nas poças. Vínhamos da aula com a pasta nas costas correndo e a mãe nunca reclamou”.

Caminho da Azenha

Sobre o bairro, a mãe de cinco filhos só tem lembranças boas. Com o terreno dividido pelo avô para os sete filhos, cada um construiu a sua casa e, no total, eram vinte crianças brincando juntas. “Eu me criei aqui. O Partenon tem muita história, todo mundo se conhecia. Tinham muitas chácaras e nós nos dávamos bem. Eu brincava que meu Deus do Céu. Tínhamos vacas e de manhã buscávamos o leite. Eu só fui feliz”.

Hugo Metzler e seus sete filhos

A casa verde

Após o terreno ser dividido, outras partes também foram vendidas. Carla Lodeiro é moradora de uma das casas construída na época da separação dos lotes. Pelos seus cálculos, a construção deve ter em torno de cem anos.

Casa de Carla, na Rua Onofre Pires

Carla, de 57 anos, cresceu na casa e diz que muita coisa mudou. “Mudaram os pontos comerciais, os prédios altos — nem sei se tinha prédio em 1950 e poucos. O comércio está bem mais ativo. E a violência cresceu. Eu tinha a turma do bairro e andava por tudo de bicicleta e patinete. Tocavamos campainhas, jogavamos tomate e ovo… essas coisas”, conta a psicóloga.

A “mãe” de três cachorros mantém contato com os amigos da época, alguns, ainda moradores do bairro. E é essa relação com os vizinhos que Carla mais gosta no local onde mora. “Eu adoro o bairro, essa coisa que a gente tem, em que todo mundo conhece todo mundo, é uma família. Se tu mora num bairro muito populoso, geralmente tu não conhece teus vizinhos”.

Casa de Vera, na rua Plácido de Castro

Aliás, Carla é amiga de infância de duas sobrinhas de dona Inge, pois cresceram brincando juntas. “Cresci com a Ana e a Vera, que são da minha idade. A mãe se dá com a Inge”, conta. A relação com o vizinho de porta também era boa. “Ali tem um portãozinho que liga nossos quintais, eles eram como pais para mim”. Além disso, também destaca que uma facilidade do bairro é a disposição para transporte público e localidade de fácil acesso.

Bondes da Carris, na Av. João Pessoa

Apesar de não se lembrar, Carla sabe que andou no colo de sua mãe no bonde elétrico que vinha pela Av. Azenha até a Av. Bento Gonçalves. De acordo com os registros da cidade, em 1908 iniciou o tráfego dos bondes elétricos pelos bairros Menino Deus, Glória, Teresópolis e Partenon. Antes disso, a primeira linha de bondes era tracionada por mulas e utilizava maxambombas (espécie de trilhos) de madeira que continuaram nas ruas por muito anos e isso Carla lembra de ver.

Sobre a violência, a moradora relata que foi de uns 20 anos para cá que passou a aumentar. “A gente começou a notar diferença. Antes, a gente brincava no verão na rua até a meia noite. Era muito tranquilo”.

Carla mantém uma relação forte com a casa. Sempre mantendo-a pintada, limpa e conservada, sendo o xodó da quadra. “Sempre conservamos a casa com a mesma fachada. Ela já foi amarela, cinza, azul e agora está verde. A relação com a casa é de amor absoluto. Tenho o umbigo enterrado aqui. Tem toda a minha história de vida, amigos, amores, relacionamentos, primeiro namorado, brincadeiras… tudo na casa”.

A casa invertida

Os boatos correm pela quadra. A casa de Seu Teófilo é conhecida como a “casa invertida”, pois, pelo o que os moradores contam, ela foi construída, há quase um século, com a frente para uma rua que hoje já não existiria mais.

Ao conversar com o morador de 74 anos, descobrimos que a construção é realmente antiga, e fecha com a data da residência de Carla, porém, ela é invertida por outro motivo. Quando construída, havia uma outra casa no terreno da frente, forçando que sua entrada fosse feita por trás do terreno. Após desmancharem a construção da frente, a casa “invertida” seguiu com a disposição original. “As pessoas falam que ela tinha saída para outra rua, mas a história é bem mais sem graça do que isso”, brinca o morador.

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