Olímpico: o que antes era motivo de orgulho se tornou problema

Emily Mallorca

Foto: Emily Mallorca

três anos, a cantoria “Venho do Bairro da Azenha, bairro do Monumental, Grêmio é puro sentimento, somos a banda da Geral” ficou estagnada nas paredes do estádio Olímpico Monumental na partida contra o Veranópolis, que acabou com a vitória do tricolor por 1x0 pelo campeonato Gaúcho. O dia 17 de fevereiro de 2013 ficou marcado na memória dos gremistas por ter sido a última vez que os torcedores tiveram a oportunidade de vibrar nas arquibancadas do estádio, que ainda hoje é utilizado como ponto de referência para os porto-alegrenses no bairro da Azenha em Porto Alegre (RS).

O Monumental, construído em 1954, já não conta mais com o grito dos torcedores, a Geral do Grêmio e as marcações dos jogadores que perpetuaram por décadas no time azul, branco e preto dos gaúchos. Os jogos do Clube foram transferidos para o novo estádio: a Arena do Grêmio, construída em 2012 e situada no bairro Humaitá. Desde então, o Olímpico segue sem funcionamento. O futuro do estádio ainda é incerto, entretanto, em 2012, a Prefeitura de Porto Alegre (PMPA) aprovou um Estudo de Viabilidade Urbanística (EVU), onde previa a construção de torres residenciais, escritórios, um shopping de bairro e uma praça pública no terreno do estádio.

Foto: Emily Mallorca

O Olímpico ainda é administrado pelo Grêmio, porém, como o clube está em dívida com a construtora OAS pela construção da Arena do Grêmio, há uma negociação travada entre as empresas para definir o futuro do Monumental. Segundo a assessoria de imprensa da OAS, a implosão sempre foi uma das alternativas, inclusive, há projetos e estudos concluídos com licenças de obras ambientais e urbanísticas emitidas. A empresa ainda aguarda as negociações com o clube gaúcho para efetuar a implosão do estádio. Conforme a proprietária do “Treis Marias”, mercado localizado a três quadras do Olímpico a 17 anos, Maria Viesseri, 57, a construtora notificou e orientou todos os moradores e comerciantes que se encontravam ao redor do estádio a respeito da implosão.

Muitos proprietários não sabem lidar com a espera da implosão, pois o estádio parado prejudica o comércio de diversas formas, o que motivou muitos bares da região a abandonarem seus negócios. “Quero que derrubem o estádio o quanto antes, pois diminuiu o movimento e a segurança se tornou nula”, rebateu o atendente do “Ponto Xis” que fica a uma quadra do estádio a seis anos, Volmar Batista da Silva, 38 anos. A proprietária do “Mini Mercado Santo Antônio” localizado a 30 anos na frente do Monumental, Alice Viesseri, 57 anos, não pensa diferente. “O que eu mais senti quando o Grêmio saiu daqui foi a falta de segurança, fora isso, nunca pensei em fechar o meu negócio pela queda do movimento”. Para a comerciante Maria Viesseri, a esperança é a última que morre. “Queria muito que voltasse o movimento que eu perdi e dá pena de ver o Olímpico, que é tão grande, ali abandonado, mas agora não têm mais volta”.

Foto: Emily Mallorca

O azul, que agora é cinza concreto; as ruas lotadas, ficaram vazias; a torcida, que virou silêncio; o gramado virou mato alto; e a liberdade, que virou cercado. É essa uma das muitas condições estéticas em que o Monumental se encontra. Para os torcedores e moradores do bairro Azenha, o estádio passa por uma das situações mais precárias até hoje. “Quando eu vim morar na Azenha, estavam construindo o Olímpico, fiquei tão triste quando retiraram o Grêmio daqui, o bairro ficou triste, lembro que a Avenida José de Alencar virava um mar de gente fazendo festa em dia de jogos!”, relembrou a aposentada, Lili Moraes, 76 anos, que mora no local a 41 anos.

Os torcedores são os que mais sofrem, emocionalmente, ao ver o estádio em situação alarmante. “Nós, como torcedores, não imaginávamos que o Grêmio deixaria o estádio atirado às traças. O que era lindo, ficou feio!”, Vinícius Hahn, operador de rádio, 30 anos. O Gaúcho da Geral, Juliano Franczak, 35 anos, evita ao máximo passar ao entorno do Monumental. “A última vez que eu passei por lá eu fiquei muito abalado, é muito triste, porque eu me criei ali. Aquilo ali tem vida, dá uma nostalgia muito grande e, se eu tiver que fazer uma volta maior para não ter que ver o estádio daquele jeito, eu dou”.

Tricolores Fanáticos

Ainda que os torcedores do clube já tenham uma segunda casa para vibrar pelo time, o antigo estádio nunca sairá da memória dos gremistas. “A arena é tipo namorado novo e o Olímpico é aquele amor que tu nunca esquece”, Francielle Viegas, técnica de enfermagem, 22 anos. A comparação entre um estádio e outro sempre será frequente, Aramís Gusmão Henrique, estudante, 21 anos, acredita que no Olímpico os torcedores ficavam muito mais unidos do que na Arena do Grêmio, situação que o faz ficar com o coração apertado de saudade.

“A arena é tipo namorado novo e o Olímpico é aquele amor que tu nunca esquece” Francielle Viegas, torcedora do Grêmio

Questionados sobre histórias que marcaram os torcedores, eles relembram nostalgicamente os momentos mais emocionantes que viveram no Olímpico. O Gaúcho da Geral, Juliano, relembra que em meados de 2005, quando o Grêmio passava por uma fase difícil para sair da zona de rebaixamento, ele e a Geral do Grêmio mobilizaram porto-alegrenses para se associarem ao clube. Além disso, Juliano ia ao Monumental todos os dias para apoiar o time, sempre alentando, a fim de que o Grêmio se recuperasse. “Aquele ano eu vivi o Olímpico ao máximo, tinha toda uma energia positiva, foi um ano marcante”.

Foto: Emily Mallorca

Nem sempre todas as lembranças serão positivas, Vinicius, que tem uma tatuagem em homenagem ao estádio nas costas, têm os últimos anos frescos na memória, quando o estádio já havia sido desativado. O operador de rádio conta que conseguiu, pela primeira vez, entrar no gramado para tirar fotos e pegou placas para guardar de recordação. “Comemorei muita coisa lá dentro, chorei muito, é um estádio que merece ser lembrado”.

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“Comemorei muita coisa lá dentro, chorei muito, é um estádio que merece ser lembrado” Vinícius Hahn, torcedor do tricolor