Um cemitério palco de história e arte

O Cemitério da Santa Casa de Misericórdia tornou-se um local de passeio e turismo pelas personalidades gaúchas ali enterradas e a riqueza artística nas sepulturas

Por Luíza Buzzacaro e Jéssica Teles

O bairro azenha é conhecido por diversos aspectos: é um bairro comercial, com diversas casas antigas e, também, com inúmeros cemitérios. Um deles, impressiona pela riqueza histórica, artística e cultural que possui, o Cemitério da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia. O mais antigo cemitério ainda em funcionamento na capital gaúcha, tem sua fundação e história muito ligada a própria história do estado e de Porto Alegre, possuindo personalidades gaúchas sepultadas no local, além de possuir obras funerárias exclusivas e cheias de particularidades.

O sepultamento das pessoas mortas, segundo a psicóloga especialista em terapia de luto, Sabrina Abruzzi, primeiramente, estava ligado a um ato de sobrevivência e saúde pública, e, com o passar dos anos, tornou-se um rito de despedida. “Esse rito tem significados diferentes, portanto dependendo da cultura em que a pessoa está inserida vai ter um significado. Além do significado pessoal, que depende de alguns fatores, como, quem era a pessoa que morreu, a circunstância de sua morte, seu momento de vida”. Ainda, de acordo com a psicóloga, o cemitério acaba se tornando um aspecto importante para a aceitação da morte e o processo de luto, e, de certa forma, é o local onde os parentes e amigos do falecido podem ir quando querem estar em contato com ele. “De maneira geral, o cemitério é o novo endereço de seu ente querido, o local onde ele se encontra e é para lá que as pessoas vão quando querem visitá-lo, conversar, levar flores, enfim, é o local onde quem morre se encontra”, ressalta Abruzzi.

Contudo, atualmente, o cemitério também ganha outros significados e outras funcionalidades, como o de “museu a céu aberto”. “Existem algumas obras lá, que tu não encontra em nenhum museu do país, mas estão lá, como arte fúnebre. Então além de ver o cemitério como um espaço de sepultamento, tu podes identificar e ver como um museu a céu aberto. Ali se preservam representações da história artística, nacional e internacional”, complementa Juliana Mohr dos Santos, historiadora da Santa Casa.

Ainda, para a também historiadora da Santa Casa, Véra Barroso, o cemitério tornou-se um espaço de visitação, conhecimento e turismo: “O cemitério é um espaço onde tu aprende todas as ciências: português, através dos epitáfios, aquelas frases nos túmulos; matemática, quando se somatiza o número de sepultados em cada quadro; geografia, pois o espaço cemiterial pode ser analisado geograficamente; física e química, no dia que tem sol e chuva e é possível sentir os maus odores da decomposição dos corpos; biologia, história da arte, história das religiões, tu aprende todas as ciências no cemitério”, enfatiza Barroso. Para o historiador e escritor do livro Cemitérios do Rio Grande do Sul, Harry Rodrigues Bellomo, o cemitério é a representação da cidade dos vivos.

“Então tem uma parte da elite, tem uma parte da classe média, tem uma parte dos pobres, e tem a outra parte dos pobrissimos, dos indigentes. Os indigentes ficam lá nos fundos do cemitério da Santa Casa, os pobres ficam mais à frente, a classe média está nas catacumbas nas paredes, e a elite está nos grandes mausoléus, onde está a nobreza também. Tem dois viscondes, um conde e seis barões que foram enterrados na Santa Casa”, disse Bellomo.

A história da arte e das religiões é representada, principalmente, pelas alegorias e esculturas presentes nos jazigos e mausoléus presentes no cemitério da Santa Casa. “Nas décadas de 1920, 1930 e 1940 aquilo bombou, porque houve uma expansão do capitalismo no Rio Grande do Sul, um aburguesamento da população gaúcha, então eles tinham dinheiro e levavam isso para morte também, não só para a vida”, disse a historiadora.

Além da beleza e riqueza da construção do mausoléu ou jazigo dos falecidos, o local onde eles se encontram também era fator importante para as famílias. “Tem a entrada principal e os corredores secundários, quem ficava nessa área central eram as pessoas mais importantes da cidade, por exemplo, condes e baronesas. Só que os túmulos são simples, porque eles não tinham socialmente essa ideia de fazer grandes monumentos para se mostrar, pois o status social já estava no título deles. E aí quando chega o século 20, a burguesia industrial também quer um destaque, então se tira esse jardim da frente e se faz um quadro mais à frente do quadro principal e ainda fazem toda essa ornamentação estatuária”, comenta Santos.

História

Até o século XVIII Porto Alegre era, essencialmente, ocupada por indígenas, e, nas missões jesuítas, por espanhóis. Após o embate entre espanhóis e portugueses em relação ao pertencimento do território gaúcho, a partir do século XIX é que Portugal começa governar as terras brasileiras, em 1801. É, portanto, nesta mesma época que o hospital Santa Casa de Misericórdia é fundado, em 1803. “Como toda a santa casa ela tem como missão prover na doença (hospital), na morte (cemitério), na infância, na loucura, na velhice, e para a assistência espiritual aos presos e condenados, o padre da capela da santa casa”, conta a historiadora Véra Barroso.

Nesta época, todas as igrejas e comunidades religiosas, principalmente as católicas, possuíam os seus próprios cemitérios, assim como o hospital da Santa Casa, que dispunha de dois cemitérios dentro do seu terreno: o para os brancos e livres, e para os negros escravos. No entanto, estes lugares eram impróprios para o sepultamento dos mortos, já que com as chuvas e enchentes, os corpos ficavam vulneráveis, e, segundo Barroso, tratava-se de uma questão de higiene e saúde pública.

“Determina-se, portanto, a criação de um cemitério extra muro, fora da cidade, lá na Azenha”, disse a historiadora. O terreno do cemitério da Santa Casa foi comprado em 1844, inaugurado em 1850, passando a ser o único cemitério da cidade até 1920. A partir de 1850, todas as irmandades religiosas tiveram que comprar quadros dentro do próprio cemitério da Santa Casa para enterrar as pessoas da sua comunidade, como a irmandade São Miguel e Almas, Santa Bárbara, São José, Beneficência Portuguesa e outras. “Somente na década de 1920 é que a comunidade São Miguel e Almas começou a se organizar para comprar o seu cemitério, fora do nosso cemitério, e assim aconteceu sucessivamente com as outras irmandades. E aí aquele bairro virou um bairro cemiterial”, relembra Barroso.

Arte

Muitas personalidades de Porto Alegre foram sepultadas na Santa Casa e ganharam lares cheios de alegorias e outros elementos ricos em arte. “Através das alegorias dos túmulos é possível fazer uma análise antropológica das pessoas que estão enterradas e das famílias através das escolhas do artistas. A relação das pessoas e o modo de pensar sobre a vida e a morte, visões de mundo estão representadas pela arte tumular”, disse Barroso.

Segundo Bellomo, grande parte das alegorias do cemitério eram representadas por anjos, como o anjo do juízo final, o anjo da saudade, da piedade, entre outros. Mas, em determinado momento, houve uma personificação dessas alegorias, tirando as asas desses anjos e os transformando em figuras humanas, normalmente representadas por mulheres.

Ainda, segundo o escritor, outro ponto importante a ser levado em consideração quando analisamos a arte tumular são os grandes nomes da escultura brasileira que tem suas obras de arte presentes no cemitério, como: Décio Villares, responsável pelo túmulo do Júlio de Castilhos; Rodolfo Pinto do Couto, que esculpiu dois túmulos; André Arjonas que fez diversas pietás e outras esculturas presentes no cemitério e o famoso Antônio Caringi, responsável pelo mausoléu de Maurício Cardoso.

Confira abaixo uma pequena lista com jazigos e mausoléus com peculiaridades e significados presentes no cemitério:

João Leite Filho: O mausoléu de João Leite Filho é o mais caro do Cemitério da Santa Casa. O túmulo foi feito em 1910, com blocos monolíticos. “Ele foi mais caro que o palacete que a família morava na época, então quando a família terminou de construir já estava falida, inclusive, porque eles não conseguiram ficar na alameda principal, então quiseram construir algo que mostrasse todo o poder econômico deles”, conta Barroso.

Mausoléu da Família João Leite Filho

Família de A I G Mostardeiro: O túmulo com influência egípcia é um dos poucos com esse tipo de inspiração em Porto Alegre. Neste túmulo, também há alegorias que possuem signos tanto para a cultura egípcia como para o catolicismo, como a ampulheta, principal alegoria do túmulo. Para a religião católica, o significado está relacionado a finitude da vida. Há, também, esculturas de deuses egípcios e um anjo italiano, representação completamente católica. “O mais legal desse túmulo é que dentro dele tem um abóbada feita de vidro azul, devido a influência egípcia, e numa época do ano em que o sol bate a pico nesse túmulo, a cripta fica toda azul”, ressalta Santos.

Júlio de Castilhos: Influenciado pelo positivismo, o túmulo de Júlio de Castilhos é em forma de pirâmide e possui a frase mais conhecida de Comti, também estampada na bandeira brasileira: ordem e progresso. O túmulo foi pago pelo estado do Rio Grande do Sul e desenvolvido pelo escultor Décio Villares. “Interessante naquela obra é a república personificada, representada como se ela estivesse vindo visitar o túmulo. Ela está sob o túmulo dele dando suas honrarias, então tem essa característica de homenagem mais forte”, disse Santos.

João Ferreira Porto: O túmulo do maior comerciante de escravos do Rio Grande do Sul foi feito no século XIX e tem um formato chamado de “bolo de noiva”, que é quando o mausoléu é construído com mais de um andar. “Ele traz na sepultura elementos de que isso [o comércio de escravos] não deveria ser lembrado, pelo menos para que ele não fosse visto como um mau elemento da história”, disse Santos. As alegorias esculpidas no túmulo são: uma criança, representando a inocência e a pureza; quatro mulheres, a fé, a eternidade, a esperança e o silêncio; e os leões adormecidos, que são os vigilantes da memória, honra e história dele.

José Gomes Pinheiro Machado: Pinheiro Machado foi senador na república e foi assassinado nas escadarias do congresso inesperadamente. Causando uma comoção muito forte na sociedade, foi feito um concurso para saber quem seria o responsável por esculpir o túmulo do político, por isso, é o túmulo com mais elementos do cemitério. Dentre estes elementos, estão: um jovem com o barrete e a pira da pátria, fazendo referência a república; um memorial de despedida atrás, que lembra a cremação; o político deitado em uma espécie de divã, as crianças que representam a infância e a república jovem; flores, que estão sempre ligadas a saudade; e a Clio, musa da história, com o pergaminho na mão e fazendo o registro dos feitos do político.

Jazigo de Pinheiro Machado

D. Adolfo Stern: Pertencente a uma família tradicional de joalheiros de Porto Alegre, Stern teve o seu túmulo construído todo de mármore e colunas em granito. No túmulo, há a representação de duas tochas apontando para cima, além de duas palmas localizadas na porta do mausoléu, significando que ele foi um vitorioso. Também há a representação de alfa e ômega, símbolos católicos que significam que a família acreditava que Cristo era o princípio e o fim, além disso o anjo do juízo final e a cruz, símbolos também católicos.

José Plácido de Castro: Plácido de Castro é um gaúcho, nascido em São Gabriel, que serviu as forças militares do Rio de Janeiro. Ele ficou conhecido como o conquistador do Acre, e foi assassinado. Então tu tem ali naquele mausoléu o símbolo da injustiça, a justiça é uma mulher com uma venda no olho, com a balança equilibrada, pois a justiça não olha a quem. Já a injustiça olha sim a quem, então tem a venda elevada na testa e a balança desequilibrada, com a espada mostrando que por um punhado de dinheiro ele foi assassinado”, conta Barroso.

José Ignácio de Carvalho Freitas: O famoso Vigário José Inácio foi pároco da antiga Igreja do Rosário, construída na década de 60. A igreja era considerada dos negros, pois era lá onde casavam, batizavam e faziam a extrema unção dos escravos. Quando o Vigário morreu, aconteceu uma consternação, pois “morreu aquele que cuidava dos escravos”. É por essa razão, que no túmulo de Vigário José Inácio tem dois anjos desconsolados chorando, além das alegorias, como a boina, a hóstia, o sal e a cruz, presentes na religião cristã. Em cima do túmulo, está presente o cálice com um pano por cima, que representa o fim de sua missão.

Teixeirinha: O túmulo do cantor Tradicionalista Teixeirinha é o mais visitado no Cemitério da Santa Casa. Era o cantor das multidões, um semi analfabeto, que nasceu no interior de Santo Antônio da Patrulha. O túmulo de Teixeirinha está localizado na alameda principal do cemitério da Santa Casa, pois o cantor gostaria de ser lembrado por todos. Sua representação na sepultura foi feita pelo artista espanhol André Arjonas.

Túmulo de Teixeirinha

Chaves Barcellos: Os Chaves Barcellos são os responsáveis pela construção da primeira galeria na capital. O seu símbolo representativo são as chaves, que podem ser vistas nos diversos mausoléus espalhados pelo cemitério, ontem também são vistos símbolos da aristocracia, a anja da saudade, uma espécie de panteon, colunas greco-romanas e etc. Os Chaves Barcellos, eram nada mais, nada menos, do que os donos das terras dos escravos, uma família de burguesia comercial.

Like what you read? Give De A aZenha a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.