Com amor, garçonete!

Texto escrito em 2015. Sobre uma escola de vida resumida em um verbo: 
Servir

Em meu último emprego fixo como garçonete, no Aro 27 Bike Café, em Pinheiros, SP (set 2015)

Há quem duvide, mas a arte de servir tem seus caprichos. É para poucos e você pode até pensar em ganhar uma grana e investir na profissão por dinheiro, mas quem começa assim dura pouco, desiste. É um trabalho pesado e braçal, mas que também exige inteligência e controle emocional, pois há troca de energias humanas, uma total disponibilidade de quem serve, e ninguém está disponível hoje em dia. Ou seja, equilíbrio e humildade também são fundamentais.

Quando se fala em lidar com pessoas, o que parece fácil se torna confuso e quase impossível para muita gente. O mundo moderno desaprendeu a dizer “bom dia”, olhar nos olhos e a compartilhar com o outro verdades e transparência. Há uma necessidade extrema de se mostrar com grifes e filtros do Instagram, mas ninguém parece ser inteiro. Por que as pessoas tentam se esconder das outras quando deveria ser exatamente o contrário? (se acharem)?

Porque ninguém quer baixar a bola, fazer a ponte para o outro cortar e mostrar que é exatamente igual ao semelhante, com defeitos e qualidades. Aprendi que ser uma boa garçonete é mais do que entender sobre a arte de servir. É criar identificação, carinho e cuidado para com o cliente. Não é frescura, é satisfação pelo que faz, amor. Todo mundo esqueceu do amor, como se ligassem no modo automático por toda a vida.

Eu acredito que no meio de toda uma cadeia consumista de comer e beber, há espaço para a humanidade. Para falar da vida e sorrir às vezes, distribuir carinho para quem a gente mal sabe que precisa. Depois de trabalhar em um restaurante na Oscar Freire, a rua mais chic de São Paulo, descobri que, com jeito, é possível lidar com uma variedade incrível de pessoas. Desde as mais disponíveis até as mais ricas e pobres de atenção.

Hoje minha “profissão garçonete” é num Bike Café, um espaço que vende almoço, açaí e bicicleta. Eu sirvo as pessoas, atendo curiosos e também sou ciclista. Garçonete? Sim, não tenho vergonha de dizer isso a ninguém, apenas busquei um lugar onde junto um pouco de cada coisa com prazer e sinceridade, e de quebra, ainda ganho um dinheirinho.

O meu trabalho não está diretamente ligado às minhas reais pretensões profissionais e meu sonho não é ser tornar gerente ou dona de restaurantes por aí, mas apenas encarar esse mundo louco com um pouco mais de verdade e destreza, sem perder o ritmo do que chamamos de “sistema”. É buscando inspiração nas pequenas coisas que temos as melhores ideias, conhecemos pessoas e achamos o que o universo reservou pra nós. Com amor, sempre.

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