“Você”
Você nunca sabe o que é que de fato está acontecendo, qual a batalha em que você está lutando, quais pensamentos realmente estão dominando sua mente, tem um universo imenso dentro de você, difundido com um universo imenso afora interagindo com você. Dentro de dias triviais e sem sentido, você carrega um vazio em alguma parte do tempo, vazio que de leve nada tem, pesa como se fosse uma tonelada de chumbo dentro dos seus 55 quilos. Certos dias nublados se tornaram esmagadores. Aquela nuvem cinzenta quase complementa a cor que a sua áurea têm vontade de transpassar, mas a sua áurea é colorida, só você não quer ver quantas tonalidades bonitas têm a sua paleta de cores. Você tem dificuldade de se sentir presente mentalmente. Você sabe que é árduo viver um momento de um jeito leve e puro sem estar idealizando qualquer outro momento ao mesmo tempo.
Você escutou que não sabia enxergar quem você era. Você até pinta uma folha de cerejeira de aquarela, mas queria saber fazer um cinemagraph decente no photoshop de notas musicais ilustradas caindo ritmadas sob as quedas d’água de uma cachoeira. Você até vê que tem um pouco de tudo mas ás vezes acha que só queria ter tudo daquele pouco. Você está sempre em cima do muro, afinal, desde pequena sofreu com decisões, todos os caminhos parecem bonitos, ora, é tão difícil ter que deixar algum de fora.
Você lembra de frases que se confundem com sentimentos e ainda batem de frente com seu nervo óptico. Você lembra de pessoas que te deixaram apenas um moletom e uma história com uma cicatriz. E apesar de lembrar, você disse que saudade não sentia mais, mas te disseram que essa memória de elefante apenas te machuca. Você acreditou. Você nunca terá justificativas plausíveis por ter se colocado em uma posição em que você passava por cima do seu próprio coração.
Te disseram que ter um trabalho que te pagasse relativamente bem era mais seguro do que ter um trabalho que te dá ânimos para encarar o trânsito de São Paulo. Você acreditou também.
Você queria poder olhar a lua toda noite e observar como ela se posiciona em lugares diferentes acima do mar a cada hora que passa, mas achou que esse desespero poético não cabia a mais ninguém que conheceu pelos seus 23 anos. Você só queria ter um gravidade envolta de si que puxasse os outros pra perto o tanto que você queria. Você só queria ter um magnetismo pra colecionar coisas boas. Você só queria continuar acreditando que a genuinidade valia a pena em qualquer cenário caótico, só queria continuar crescendo, aprendendo e sendo alguém sempre melhor — um clichê digno e subestimado. Você só não quer cansar a sua alma. E o que não é amor, cansa.
