O militante

“Vem assistir ao debate comigo.” Esse foi sem dúvida, o melhor convite pra sexo do ano que passou. Ele sabia como convencê-la. Em menos de uma hora os dois queimavam um baseado enquanto Dilma Rousseff e Aécio Neves diziam meias verdades e mentiras inteiras em rede nacional. Desfrutavam mutuamente de seus corpos entre tragos e observações ao que falavam os candidatos. Ele era filiado ao Partido dos Trabalhadores e se remoía a cada pronunciamento errado de sua candidata. Ela dizia-se de esquerda e se recusava veementemente a votar no candidato tucano, mesmo não concordando em tudo com a candidata à reeleição. Ela se adaptava ao contexto em que vivia, tinha consciência de que ele não era o homem com quem partilharia a vida. Ele sabia que ela era o tipo de mulher desiludida com homens como ele, mas ainda assim acreditavam no amor como única solução possível contra o terror da morte e da solidão. Os dois estavam ali de comum acordo. O contrato era temporário. Uma ou outra noite quando sentiam-se sozinhos ao extremo ou quando a euforia era tamanha que precisava ser compartilhada. Gostavam-se, respeitavam-se, mas não se amavam, ou talvez esse fosse o único tipo de amor possível nestes dias.

De alguma forma tornaram-se cúmplices. Ela admirava seu caráter combativo e ele acompanhava seu despertar. A conheceu quando ela mesma não se conhecia, duvidava até mesmo do próprio nome. De certa forma participava do processo a que ela chamava de emancipação. Na noite em que se encontraram pela primeira vez passaram longas horas conversando sobre tudo enquanto bebiam e riam. Lembra feliz de que ele estava indo embora quando olhou para trás, a viu, e resolveu ficar. Aquele olhar os uniu, senão pra sempre, por noites inteiras. Sempre que pensava nele lembrava daquele olhar, um olhar de desejo e atenção, de luxúria e admiração. Não entendia porque não se apaixonaram, acreditava que era por serem livres demais, a paixão lhes parecia escravidão. E ele, muita mais que ela, lutava contra qualquer forma de opressão. Ela muito mais que ele, gostava de como suas pernas ficavam entrelaçadas na hora de dormir.

Ela gostava também de como ele não se importava com coisas que realmente são sem importância, principalmente diante da importância de suas companhias. No meio da noite, entre uma transa e outra, foi ao banheiro enquanto reparava o novo apartamento. Gostava de sentir suas coxas livres e seus pés descalços no chão daquele lugar tão despido quanto ela própria. Um lugar onde só um corpo nu se sentiria realmente a vontade. Voltou pra cama. Na verdade um colchão de solteiro no chão, rodeado pela roupas que horas antes foram tiradas já no primeiro toque. Sabiam que a noite seria demoradamente aproveitada, mas tinham pressa um do outro. Era assim sempre que se viam. Fosse na rua, em casa ou num vagão.

Mais um baseado e as mãos dançavam no ar. Buscavam-se em uma dança imaginária com movimentos tão complementares, que tinham certeza serem protagonistas do mais belo e sublime espetáculo. Um barulho qualquer vindo do exterior os traz de volta à realidade do quarto. Riem, se fazem cócegas e no anseio de pará-lo ela senta sobre ele, pressionando seu braços contra o colchão. Ele está imobilizado e não pensa em melhor jeito para estar. Admira os peitos pequenos e rosados, que agora balançam lentamente enquanto ela tenta mantê-lo preso. Num movimento brusco ele consegue soltar os braços e levantar o tronco abocanhando numa só mordida o peito todo. Ela geme de prazer e dor na mesma intensidade. Aperta o outro seio que ficou ali à espera de ser mordido também. Tem ciúmes de si mesma. Ele entende o sinal, desprende-se com tamanha facilidade do peito que até agora beijava para agarrar o outro, com tamanha ferocidade que a faz lembrar do quanto tudo é passageiro. Afasta o pensamento inútil e volta a se entregar à delícia que é tê-lo entre suas pernas. Passa alguns minutos a observar aquela figura tão linda e misteriosa que agora acende a ponta do último baseado que ficou esquecido por ali. Enquanto prende a fumaça tragada, pergunta com uma voz engraçada. “O que você acha do tamanho do meu pau?” Ela permanece em silêncio, lhe toma o baseado enquanto ele se encaixa dentro dela a fazendo suspirar e em resposta a sua pergunta ela goza outra vez.