Meritocracia pra quem veio da Periferia

Adelino Bilhalva
Aug 24, 2017 · 3 min read

Ninguém pediu mas eu queria dar a minha versão sobre a meritocracia depois da enxurrada de bosta que tenho lido das pessoas por ocasião da reintegração de posse da Ocupação Lanceiros Negros em Porto Alegre.

Eu nasci em uma família pobre que me criou em Alvorada, um lugar onde quase todo mundo conhece como a Cidade Sem Lei. Meu pai prometeu me assistir só até a conclusão do segundo grau, então já me preparei para me virar sozinho a partir daí. Vocês podem dizer que eu venci na vida. Tenho uma ou várias profissões, venci um reality show na tv, estou abrindo um restaurante e consigo dar o básico que a minha nenê precisa. Mas e o custo disso? Para “vencer” não dá pra tirar férias. Não deu nos últimos 15 anos pra tirar sequer 2 meses. Pra “vencer” eu passei anos com as pessoas rindo pois sabiam que eu era de Alvorada por causa dos pés embarrados (quase lugar nenhum lá tinha pavimentação) e a partir dessa conclusão ninguém mais te escuta, pois todo mundo “sabe” que de “Alvorada não vem nada bom”.

O Adelininho se formando no pré com a sôra Márcia.

E quando tu “vence” na vida e começa a andar com os que já vieram de berços onde não se fala disso, tu não fala. Tu não comenta que veio de baixo pra poder passar de bacana. Pra ser aceito. Tu escuta as histórias das mil visitas à Disney e tu nem no beto carreiro foi e da galera que viaja toda hora pra fazer extensão na europa mas tu tá suando pra pagar o aluguel e a dívida que assumiu pra sair de casa já que não tinha outra opção. Mas vão dizer: “ah tu podia ter ficado na casa dos teus pais (Na periferia onde pobre tem que ficar. Pra não enfeiar o centro com os teus pés embarrados).

Então eu falo com propriedade que a tal meritocracia não existe. Não há esforço que tu possa fazer que vai completar o lag de ter que começar a trabalhar com 15 anos pra poder ter o básico enquanto outro alguém tá viajando pelo mundo e engordando o currículo. Tu não vence toda a cultura que deixou de adquirir quando tem que trabalhar todas as madrugadas para realizar um sonho enquanto a galera ta visitando exposições em sp. Tu batalha, trabalha em dobro, sacrifica guarda-roupa, viagens, se humilha, finge que é bacana, evita na infância falar que teu pai é mecânico e tua mãe costureira e até as cuecas passam mil vezes pela velha singer antes de comprar uma nova. Mas tu nunca alcança quem já veio com tudo pronto. É claro que tu descobre outras coisas, outros valores que talvez essas pessoas não vão conhecer. Mas tu só consegue trocando descanso por trabalho, férias por trabalho, amigos por trabalho, festas por trabalho, roupas por trabalho, etc…

E eu to falando de mim e talvez alguns amigos que se criaram parecido e tenham conseguido algo também. Mas a maioria esmagadora não. Eles não tiveram nem o pai que sabia arrumar carros e nem a mãe que sabia fazer roupas. Teve um ano que gente só estudou porque o estado nos doou os cadernos. Cadernos com folhas muito finas e lápis com pontas muito duras que rasgavam o caderno quando se escrevia. E se o colégio não tivesse nos dado isso? Se não houvesse essa assistência? Talvez vocês não tivessem meu canal no youtube para descobrir onde comer bem e barato pelo Brasil. Talvez eu não tivesse um monte de coisas, porque pra quem tem pouco, uma coisinha que falta, vira uma bola de neve de coisonas que vão faltar lá na frente.

Então se você defende a meritocracia, provavelmente você acha que é só batalhar, pois você batalhou. Batalhou que nem eu, batalhou mais, deixou de fazer aquela segunda viagem pra Amsterdam na base da mesada pra investir naquela startup de coisas criativas. Mas lembre-se que sempre tem uma família com menos que você, sem pai mecânico, sem mãe costureira, que não pode dar nem o básico pra tu batalhar.

A mãe costureira e o pai mecânico.

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