O Curador Ferido e a grande pedra no caminho.


Já passara das 2 e meia da tarde, e aquela reunião já estava para começar. Lucas já começara a ficar aflito, como de praxe. Ás 3, já estavam todos na sala, discutindo a melhor abordagem para o problema proposto, e como sempre, Lucas ouvia atentamente as opiniões alheias.


Jonas adora sair com os amigos. Quase todas as sextas eles se reúnem para irem para um barzinho ou assistir um filme no cinema. Todos da turma sabem que não adianta perguntar para Jonas onde ir, ou qual filme assistir, pois ele nunca decide. Conhecido por seus amigos como o quietão, Jonas tende a falar baixo e não expressar muito o que sente de forma autêntica.


O que Jonas e Lucas têm em comum?

Ambos possuem um tipo de padrão comportamental, onde a falta de expressão de opiniões e de sentimentos é marcante, trazendo uma série de consequências, dentre elas a perda da autonomia, o sentimento de frustração, impotência e culpa, que tende a se generalizar para todos os contextos, sejam na escola, faculdade, família, trabalho e até mesmo nas relações amorosas.

Eu sei bem como Jonas e Lucas se sentem, pois assim como eles, eu sofri muito me comunicando de forma passiva, ou de maneira Não Assertiva, como é chamada dentro da psicologia.

O silêncio e as suposições são as marcas registradas desse estilo. Quem se comunica dessa forma não se respeita, ou seja, descarta as próprias opiniões e os próprios sentimentos. O comunicador passivo coloca todo mundo em primeiro lugar, menos a si mesmo. A passividade tira o poder da pessoa e permite que os outros tomem as decisões necessárias.
As características verbais desse estilo de comunicação incluem: hesitação, silêncio e auto-rejeição. Já no lado não verbal, os sinais são: desvio do olhar, postura desleixada, braços cruzados ou mão cobrindo a boca. Os pensamentos associados a essa comunicação podem ser: “Minha opinião não importa” ou “As pessoas vão me julgar”

Na comunicação não assertiva, achamos que não somos capazes, merecedores ou dignos de tomar decisões, sempre colocando os outros, e suas opiniões, em primeiro lugar. E ao fazermos desta crença (limitante) uma verdade, podemos achar que somos um bosta.

E se nos acharmos um bosta — na verdade se em algum momento da sua vida, provavelmente na infância ou adolescência, alguém lhe reprimiu quando tentava expor sua opinião, causando um trauma que foi absorvido pelo seu inconsciente — seremos um bosta — na verdade, esse padrão de comportamento inconsciente irá se manifestar, como um mecanismo de auto defesa — até que o ciclo seja quebrado!

Afinal “O que o Pensador pensa, o Demonstrador comprova.” Parafraseando Robert Anton Wilson [1].
Ou, esse é o segredo do O Segredo.

Então, em meados de 2014 e 2015 eu consegui identificar este padrão de comportamento em mim. Consegui trazê-lo para o meu consciente (consegui perceber), e com muito trabalho interno, pude quebrar o ciclo.

Com isso as portas de um novo mundo se abrira para mim, e pude sentir em minha vida os benefícios da comunicação assertiva.

Melhorei minha autoestima, tornei minha comunicação assertiva, fosse por meio escrito ou verbal. Me posicionava de uma maneira efetiva e poderosa, a ponto de até conseguir fazer apresentações (algo impensável para mim). Melhora na habilidade de tomar decisões, não sentir mais sensações de menosprezo e coação, substituídas pelo sentimento de compreensão e controle.

Comecei a escrever meus textos aqui no Medium, expressando o que eu costumo de chamar de a minha verdade. Textos como Ei ateu, foi assim que eu decidi não acreditar mais na Ciência, Um Ensaio Sobre o Inconsciente ou Filho não tenha medo do mundo que ao escrever e publicar me faziam me sentir muito, mas muito bem, cheios de opinião de uma forma respeitosa, que refletiam o que eu acredito, mantendo acessa a chama de um grande sonho: escrever um livro!


“No meio do caminho tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.”

Porém em 2016 fiquei vários longos meses sem escrever. A cada dia, mês, mais difícil era sair um texto.

Este foi o preço que eu paguei por querer escrever pra você.

Veja bem, você é uma pessoa única. Sua visão de mundo é única. Totalmente diferente da visão de mundo de qualquer outra pessoa no mundo.

Ao querer escrever pra você (ou querer agradar você, com a sua visão de mundo) eu, automaticamente, não estaria escrevendo para todas as outras pessoas.

Foi ai que eu comecei a me preocupar em escrever não só pra você, mas pra todos. E quando escrevo pra todos, é porque inconscientemente estou querendo agradar a todos. E quando tento agradar a todos, esqueço de mim, das minhas opiniões e verdades.

E quando esqueço de mim… FUDEU!

Projetos foram engavetados. Com o tempo, fui perdendo aquela conquistada assertividade nas minhas relações, — sobretudo profissionais — e junto, a autoconfiança. Não conseguia mais escrever. Não sentia verdade no que eu escrevia, pois eu necessitava agradar a todos!!

O comunicador passivo coloca todo mundo em primeiro lugar, menos a si mesmo.

A pedra da passividade voltara a ficar no meu caminho, e minhas retinas, tão fatigadas, não conseguia enxergá-la.

Até agora!

O Curador Ferido.

Há quem diga que a oportunidade só bate à porta uma vez na vida. Eu não concordo.

Pra mim, ela sempre está lá, nós é que não percebemos, já que na maioria das vezes não vem com setas dizendo “Oportunidade, entre por aqui”.

Muitas vezes, a oportunidade, vem na forma de dor, sobretudo a oportunidade de mudança.

E foi assim, em um momento de dor que eu exerguei a pedra (com todos os seus detalhes, significados e nomes técnicos na psicologia) e junto, a oportunidade, cujo, neste exato momento estou agarrando com todas as minhas forças!

E o melhor: eu já sei o caminho.

Assim nasceu esse texto para relembrar de nossa (da minha) pedra e de que todos nós temos uma ferida com o potencial de nos tornar curador [2].


[1] Robert Anton Wilson, em Prometheus Rising, utiliza esta afirmação para exemplificar como nossa consciência transforma a nossa realidade (ou como ele define: "túnel de realidade") por meio das crenças que formamos. É uma visão mais centrada e sem o apelo marqueteiro de O Segredo.

[2] O Curador Ferido é um termo criado por Carl Gustav Jung cujo representa um terapeuta (ou qualquer pessoa) que é compelido a tratar os pacientes pelo motivo de ele mesmo estar ferido. O que o impulsiona é justamente sua ferida, que um dia foi renegada.