Que mundo você está criando?


Sempre fui fascinado pela Física.

A possibilidade de entender como as coisas funcionam, em seu nível mais básico, sempre fez com que meus olhos brilhassem.

Porém, quando comecei a conhecer os conceitos da Mecânica Quântica foi onde descobri que nada mais fazia o menor sentido. Inclusive a tal interpretação dos Muitos Mundos.

Formulada por Hugh Everett, esta interpretação para fenômenos bizarros observados na medição de partículas sub atômicas, — tais como o fóton — nos diz o seguinte:

Para cada decisão que tomamos, uma realidade paralela (ou mundo) é automaticamente criada para a opção que deixamos de escolher.

Portanto, de acordo com esta teoria, a cada decisão em nossa vida, mundos paralelos com outras versões nossas estariam sendo criados.


Ok. Calma! Este texto não é sobre mundos paralelos, teoria das cordas ou buracos negros.

Este texto é sobre decisões.

Se decisões são tão importantes assim, a ponto de criarem mundos paralelos com versões nossas em outros universos (ou multiversos), que mundos estaremos criando?


Estamos na virada do ano 1999 para 2000. Da sacada de seu prédio, Mariana, então com 19 anos, observa as luzes dos fogos de artifícios dando boas vindas à este último ano do século XX, e do milênio.

Também poderia ser o último ano de Mariana no Brasil, pois sua tão aguardada viagem ao exterior, com que sonhara há anos, começaria a ser planejada junto com as resoluções de ano novo.

Começaria, se não fosse pela pressão da família e alguns amigos em adiá-la, focando em estudos para passar no vestibular de medicina, profissão que seus pais sempre sonharam para ela, apesar da sua inclinação para artes.

Ali, pensativa, diante daquelas luzes, chuva fina e da energia da meia-noite, observando abraços e desejos de "feliz ano novo" de pessoas queridas, Mariana toma sua decisão.

Mundo 1.

Decidida a sacrificar sua verdadeira vontade, para deixar seus pais e amigos orgulhosos, Mariana decide ficar. Estudou muito o ano inteiro e encheu seus pais de orgulho passando no vestibular para medicina. Com muito esforço conseguiu terminar a faculdade, onde conheceu seu marido, com quem vive há 4 anos. Ultimamente, quase não o vê, porque o plantão de ambos dificilmente possibilita. Sorte, pois eles vivem brigando. É justificável, afinal a quantidade de bens que acumularam só poderia ser mantida com trabalho árduo na profissão que até hoje não sabem porque escolheram. Além disso, como optaram lá atrás por não terem filhos, o resultado é a total falta de vontade de Mariana em levantar de sua cama toda manhã, sem saber realmente o porquê.

Mundo 2.

Já prevendo a batalha que seria, Mariana respira profundamente… e decide. Teria que contrariar sua família e amigos para defender a sua verdadeira vontade. Assim, Mariana não prestou vestibular este ano, e colocou energia em se planejar e planejar sua viagem. Mesmo com sua mesada cortada, como uma forma de pressão financeira. Na verdade, ela fez disso um estímulo para encontrar meios de conseguir independência financeira dos pais, dando aulas particulares de Inglês. Em uma delas conhecera Alberto. Saíram algumas vezes, mas a verdadeira marca que ele deixou em sua vida não foram os beijos e nem as carícias, e sim a frase que ele sussurrou em seus ouvidos certa vez: "Nunca deixe que tirem seus sonhos de você."

Assim, aos "trancos e barrancos", conseguiu embarcar em sua jornada de 1 ano, que se estendeu por mais 5 estudando no exterior, afinal, sua paixão recém descoberta pela Economia Circular, uma alternativa à nossa atual economia baseada no capitalismo de consumo, permitiria a ela construir uma base sólida de conhecimentos em países mais conscientes desta possibilidade.

Hoje, Mariana está de volta ao Brasil, e trabalha arduamente em sua paixão, uma causa para conscientizar as pessoas para esta nova possibilidade de economia, mais consciente. Assim, Mariana tem uma incrível energia para levantar todos os dias de sua cama de manhã, pois sabe exatamente o porquê.


No primeiro Mundo, Mariana. Que por conta de uma decisão inconsciente — ferindo seus próprios valores — se transformara em uma pessoa amarga, que não suporta o marido dentro de sua própria casa. Médica medíocre, que usa a profissão como uma fuga de seu mundo. Mundo este, em que ela não tem a mínima ideia do porque de sua existência (dela própria e de seu mundo).

No outro, apenas Mariana, sendo ela mesma.

Para ser ela mesma, Mariana apenas tomou a mais importante decisão de sua vida, de maneira consciente, lá atrás.

Conforme caminhou no seu próprio processo de evolução pessoal, tendo outras experiências de vida, contato com outras culturas, outras formas de pensar, conhecendo e respeitando suas limitações, ela foi vivendo mais intensamente seus valores e suas decisões foram tomadas de forma bem consciente e alinhada com o que ela acredita.


Por mais que eu goste de Física e Mecânica Quântica, é uma pena que essas teorias não tenham nenhuma aplicação prática em nossas vidas, afinal, você não encontra pessoas criando mundos ou realidades por aí, certo?

Mas e se elas pudessem… e se você pudesse criar mundos?

Que mundo você estaria criando?


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