Essa coisa do cagaço.

Eu escrevia algumas porcarias lá em meados de 2005. E o pior é que tinha gente que lia.

Um dia desses, achei nas interwebs, lugar onde aquela foto vazada do seu cu nunca morre, arquivos antigos de um blog raquítico e postagens vergonhosas em um Fotolog moribundo (Fotolog? O que?)

Achei coisas que nem por mil pacotes de Haribbo eu revelaria aqui.

Não que eu discutisse sobre os crescimentos exacerbados das minhas extremidades (falo aqui principalmente de narizes, ok?) ou fazia reviews de Shurato. Mas era cada miséria escrita que, rapaaaz! Queria eu, hoje em dia, ter problemas no nível em que eu considerava aquelas "crises". Agora tudo vem na forma de um boleto.

Era como se o universo estivesse em translação ao redor do meu rabo e eu fosse protagonista de um épico da vida onde todo mundo era figurante da Alameda dos Anjos. Tudo feito com isopor e papel crepom.

Se eu fosse falar sobre aquelas mesmas coisas hoje em dia, provavelmente entraria em estado cataléptico de quem bebeu Diabo Verde, escorrendo pelo ralo do tanque de lavar roupa até desaguar no rio Araguaia e ser devorado por pirarucus comedores de merda.

Em algum momento da vida, entre partidas de Shadowrun e masturbações em bonobos havaianos, parte da facilidade em comunicar e agir mudou. A real é que a gente fica meio impaciente né? Achamos que é massa ser ranziza e tals, criando todo um protocolo pra falar/fazer coisas:

a) É importante? Se sim, avance uma casa;
b) É lógico? Se sim, cale a boca;
c) Essa pessoa vai ________ pro que eu falei/fiz? (Preencha com alguma reação de carta de Magic). A depender, enfie a cabeça num buraco;
d) Não da pra falar depois? Sério mesmo? Tipo, vamo marcar? Independente disso, reinicie todo o processo.

O nome disso é cagaço, queridinha.

O cagaço é esse ser antidiluviano, de poderes Murphycos e travestido de problematização que sempre vem antes de alguma atitude. O sapeca inclusive faz cosplay de "brother" te fazendo pensar que essas indagações de assento de vaso são pro teu bem, pra fazer o melhor.

Pode ser o cagaço de criar algo, de tomar uma decisão importante na sua vida (sabe aquela mudança?), ao encarar uma página em branco, de falar que tá a fim da cremosa (me identifico), de falar que NÃO tá a fim da cremosa (me identifico também, high five!), de pegar o doce no baleiro que claramente está ali pra ser pego, mas que você está há duas horas pensando se deve ou não pegar.

A pessoa paga uma de metódico e organizadão. Quando na verdade tá com a cueca inchada, estourando de tanto vazamento intestinal.

Daí a coisa vira um estilo de vida porque você passa a categorizar tudo em níveis, com pré-requisitos infinitos e aditivos. Assumir que tem medo? Imagina! Você acha que tá se organizando, resolvendo cada condição em loop eterno, vestindo aquela bosta de roupa branca no final do ano com a caçola amarela pra gritar no Instagram “AGORA VAI!”.

Palavras tem poder e ações promovem a mudança. Isso exige muita responsabilidade, mas se interiorizar demais adquire exatamente o sentido oposto. Aí a vida fica mais triste que assistir O Óleo de Lorenzo.

De vez em quando é bom voltar naquela época onde tínhamos menos medo de fazer/dizer merda e tentar extrair o que era válido (menos a batida de Halls). Encarar as coisas pelo seu processo de descoberta e expansão e entender que isso só acontece quando damos o passinho, mesmo que tremendo.

https://www.youtube.com/watch?v=rrtFy5C02Pc

Descobrir que até o mesmo de todo dia pode ser diferente.