Piratas da Lama

O Douglas foi meu primeiro e melhor amigo de infância.

Entre joelhos ralados, biscoitos cream cracker, bichos de pé e overdoses de Merthiolate , aprendi bastante com o "Dôglas".

Aprendi que uma caixa de papelão pode virar uma nave espacial supersônica, na qual podemos visitar a Lua em cinco minutos e lá viver durante 350.000 anos, cultivando pitombas espaciais, duelando contra forças venuzianas, caolhas e anêmicas de Alfa Superior #510, planeta refúgio dos Centaurianos Ganímedes.

Descobri que andar de patins é muito melhor ao dividir aquele par velho e surrado, de presilhas verde limão e rodas amareladas com o seu amigo. E tudo fica ainda mais emocionante ao se agarrar de forma intrépida na traseira de um caminhão em movimento, esfumaçando labaredas draconianas no meio da avenida. Melhor ainda quando o motorista, de peito mais cabeludo que um Ewok, os percebe e lança pragas antediluvianas contra suas pobres progenitoras (que acreditam que vocês estão no pátio com os Gi Joes.)

Gi Joes, os quais percebemos que, após experiências empíricas baseadas nas mais diversificadas áreas de estudos rá-tim-bum, adoram a dramaticidade que só o ato de serem incinerados pode proporcionar. Resultado da batalha infinita contra Transformers falsificados da feira da Sulanca e Tartarugas Ninja cancerosas resultantes da pós-lavagem com água sanitária e pasta de dente.

Foi com meu amigo Douglas que comecei meus primeiros passos na pirataria clássica, desbravando mares lazarentos de lama e esgoto enquanto enterrávamos tesouros em locais tão secretos que nem lembraríamos posteriormente (mapas pra que?). Coleções de preciosidades que se resumiam na maioria das vezes à garrafas pet e tampas de Kinder Ovo, perfeitas cápsulas criogênicas para procriação alienígena intercontinental.

Ao lado desse amigo quase morri em conflito com traficantes do bairro (cujo mais famoso membro era chamado bravamente de Gyodai). Lógico que crianças são imortais e escapamos com poucas avarias, um muro quebrado e uma sandália envolvida em bosta de mendigo.

Descobri que brinquedos quebrados se tornam novos brinquedos, com infinitas, cabalísticas e interessantes propriedades, capazes de abrir portais para os mais profundos planos de existência e extrair de lá qualquer coisa que você imaginar que caiba dentro de uma lata de tinta Suvinil.

Constatamos o poder ninja das mães de acertar uma chinelada a mais de 500 metros bem no meio da sua cara, cuja impressão de hambúrguer grelhado gerada servia como a mais honrosa marca de batalha que um guerreiro poderia conquistar para sua tribo.

Foi com ele que, após intensas campanhas em solos terrenos, lunares e extraplanares, aprendi a dizer adeus. Isso se deu ao ter que partir daquele bairro tão cheio de histórias, locadoras de videogames com geladinhos e planárias (saudades, Seu Filadelfo!) e bancas de revistas com álbuns de figurinhas nunca terminados. Nossa temporada de aventuras havia chegado ao fim e um novo horizonte se desdobrava. Tudo isso a contragosto mútuo. O medo da trágica mudança, de ir pra um bairro desconhecido e longínquo quase temíveis 6km de distância, criava uma fenda abissal entre o velho mundo e o novo, a impressão gélida do impossível retorno. O Douglas lá ficou. A silhueta do bravo marujo sumindo atrás do caminhão de mudança.

Ainda viríamos a nos encontrar. Anos depois. As aventuras já haviam cicatrizado nos corações dos bravos piratas da lama. O tempo passa para uma criança de forma muito rápida e, aquele instante temporal, naquele momento um presente e hoje um distante passado, o Douglas e eu já nos aparentávamos estranhos. Não nos cabia ainda, naquele momento, o costume antigo de sentar, acender a fogueira e recontar nossas histórias, rejuvenescendo e encontrando-nos de volta a girar aquele leme desbravador de oceanos.

Mas as histórias são vivas e se recontam dentro da gente, "pirilampeando" e rodopiando nesse mar muitas vezes confuso que é a memória, sempre trazendo aconchego e abrindo novas portas ao saber que os tesouros ainda estavam ali. E nosso mar de lama se mostrava intrépido à frente, ainda cheio de aventuras à descobrir.

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