Benedito

Benedito embrenha-se pela estrada de barro sob poeira e mormaço
Os olhos carecidos de nuvens 
Se perdem na vastidão do céu
No tom de branco que as carcaças de bois dão a vereda descampada

Na mão, o terço
Na boca, o Pai Nosso
A Ave Maria 
Um largo sorriso

Benedito bendiz por onde teima a vida
Bendiz o duro chão de rachar
Bendiz a ardência do sol no lombo
Bendiz o bode e o boiadeiro, retirantes e que vivem a pastar

Benedito segue 
Nem se dá conta que a rotina do sertão é sua sina
Peso, dor e ferida
Vegeta?
Até o fiasco de vida?

Benedito tenta arredar a morte
Vixe Maria
Por que não se achega cá a danada da vida?

Benedito, como um mói de nordestinos
Como outro mói de Beneditos
Caminha por léguas e léguas
Por valas e em riba de égua, arre égua
Vai, em vão, vez outra com as mãos ao rosto
A firmar os joelhos no pé do barranco
Deus, cadê a chuva?
Mas só há palma, sol, culpa
A plena fé na vida, diacho de vida
Que um dia chova 
Chova
Uma chuvarada para sossegar a dor da sina

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