Que Competências para as Novas Gerações? [III]

Neste meu terceiro texto sobre competências para as novas gerações optei por não me referir explicitamente ao relatório Perfil dos Alunos para o Século XXI. Pareceu-me que seria mais apropriado aproveitar o resto do período de debate suscitado pela publicação do Perfil para dar conta de algumas reflexões que fui consolidando sobre o tema ao longo dos anos. Assim, em vez de me centrar no referencial do Ministério da Educação, irei recorrer a um referencial alternativo que tenho vindo a desenvolver para meu uso. As contribuições para o debate do Perfil surgirão, assim, de forma implícita, em torno do debate deste outro referencial.

Quando comecei a interessar-me pela temática das competências para as décadas futuras, e deparei com um cenário babélico de referenciais internacionais distintos, apercebi-me de que estava perante um manancial imenso de informação sobre as competências que o mercado, entendido em sentido lato, desejava — em alguns casos, implorava — que a escola lhe desse, e que a escola não lhe dava. O volume de informação recolhido pelas equipas de alguns destes referenciais junto dos mais variados stakeholders mundiais era de tal forma rico que me apercebi de que seria impossível progredir com solidez neste domínio sem tentar explorar ao máximo esse manancial.

Perante a diversidade de referenciais aparentemente incompatíveis, surgiam-me duas formas de prosseguir. Uma, era conduzir um estudo comparativo dos referenciais e tentar retirar algum sentido da comparação. A outra, era tentar fundir, num só, os referenciais existentes. Como me apercebi, entretanto, de que já havia estudos extensos e rigorosos de comparação dos referenciais, optei por me socorrer dos resultados desses estudos para me lançar na aventura — ou, se quiserem, no artesanato de filigrana — de fundir os diversos referenciais num só. O resultado, que ainda está a sofrer ajustes e consolidações, é o que observam no mapa conceptual que ilustra este artigo.

Importa reforçar que não existe neste referencial — que é o primeiro e único referencial de síntese de competências que conheço — nenhuma competência que não estivesse nos referenciais de origem. Se alguém encontrar alguma competência que não gosta de lá ver, ou se, pelo contrário, encontrar no referencial alguma omissão imperdoável, não há muito que possa ser feito para reparar a falha sem atraiçoar o objetivo de síntese que presidiu à sua elaboração. O que se pode fazer agora, e eu tenho vindo a tentar fazer, é interpretar e explorar o referencial, tal como ele ficou, e eventualmente enriquecê-lo com os dados de outros referenciais fidedignos que venham a surgir.

Vou, então, passar a comentar brevemente este referencial de síntese, sem, no entanto, deixar de insistir em que as competências de que aqui falo não são disciplinas, ou ramalhetes de conhecimentos traduzidos por conteúdos, mas sim competências de nova geração, entendidas como: (1) transversais, cobrindo mais do que um domínio; (2) multidimensionais, incorporando saberes, aptidões, atitudes e valores; e (3) indutoras de comportamentos de ordem superior quando aplicadas à resolução de problemas em situações complexas ou de elevada incerteza.

Se, para simplificar, ignorarmos os vinte e oito ramos mais periféricos do referencial, ficamos com as cinco pétalas centrais retangulares sombreadas. A pétala superior esquerda sintetiza as competências fundamentais que cada cidadão deverá possuir e cultivar. Se prosseguirmos no sentido dos ponteiros do relógio, surgem-nos as competências para aprender e inovar, que se entrelaçam com as anteriores e as reforçam, estimulando o exercício da curiosidade, da criatividade, do pensamento lógico e do pensamento sistémico, ao mesmo tempo que convidam à inovação.

Seguem-se, no sentido dos ponteiros do relógio, as competências emancipatórias — a meu ver, as mais desesperadamente necessárias aos jovens cidadãos dos nossos dias. Educados numa escola dominada pelas pedagogias da explicação, isto é, da autoridade do professor perante a convencionada ignorância e dependência do aluno, os jovens dos nossos dias saem do sistema de ensino obrigatório, a caminho do mercado de trabalho ou dos estudos superiores, num auge de passividade e abulia. Em boa verdade, se alguns emergem do sistema de ensino obrigatório com níveis aceitáveis de autonomia e capacidade de afirmação, isso acontece, não graças ao sistema, mas apesar dele.

Continuando no sentido dos ponteiros do relógio, encontramos as competências humanísticas e artísticas. Se as competências anteriores são essenciais à sobrevivência do indivíduo nas próximas décadas, arrisco-me a sugerir que as competências humanísticas e artísticas poderão ser essenciais à sobrevivência da civilização. Com os algoritmos e sistemas de aprendizagem automática a reproduzirem-se em roda livre, nas mãos do grande capital sem escrúpulos e de técnicos sem dimensão cultural que não seja a da sua específica e restrita especialidade, podemos estar a encaminhar-nos a passos largos para uma catástrofe civilizacional — que até já se anuncia! Onde estarão as competências culturais e transdisciplinares superiores capazes de dar sentido humano aos resultados debitados mecanicamente pelas análises maciças de dados? Quem será capaz de vigiar os erros e preconceitos que alimentam essas análises e que estão, muitas vezes, na base da concepção dos algoritmos? Ou conseguimos formar cidadãos com a dimensão cultural, social, filosófica, ética, histórica, política, estética, artística necessária para humanizar a tomada de decisão e gritar que o robô vai nu, ou arriscamo-nos a assistir, ainda neste século, a grandes tragédias.

Por último, no sentido dos ponteiros do relógio, mas sem que merecessem o último lugar, surgem as competências sociais e emocionais. Num mundo largamente destituído de literacias sociais, relacionais e emocionais genuínas, estas competências, que se entrançam intimamente com as restantes, são hoje reconhecidas como fortes predictors of success, isto é, como determinando antecipadamente o sucesso de quem as possui e o insucesso de quem não as desenvolve e cultiva

Haveria que percorrer agora cada uma das vinte e oito competências periféricas do referencial. Algumas delas mereciam um ou mais artigos inteiros, como é o caso das super-competências de comunicação, que abrangem aquilo que o Perfil dos Alunos para o Século XXI define como “linguagens e texto”, “informação e comunicação” e muito, muito mais. Haveria que debater também, profundamente, as pedagogias necessárias para dar sentido a tudo isto. Pedagogias que na escola de hoje continuam a ser predominantemente explicativas, apesar de existir hoje larga margem, facilitada pelas tecnologias, para fomentar pedagogias emancipatórias. Tudo isso poderá ser tema para futuros episódios, se a agenda me for dando uma ou outra aberta e estas questões suscitarem, de quem as lê, interesse que o justifique.

Sobre este tema, partilhei anteriormente dois outros textos:
Que Competências para as Novas Gerações? [I]
Que Competências para as Novas Gerações? [II]