A BATALHA POR MOSSUL

Há alguns meses, foi muito popular na net uma «explicação» que pretendia «tornar clara» a forma como se relacionavam, de um ponto de vista dos EUA, as forças em presença no Médio Oriente. Um americano dizia, mais ou menos, isto:

«Nós apoiamos o Iraque na sua luta contra o Estado Islâmico (EI) porque não gostamos do EI. Mas gostamos da Arábia Saudita que, por sua vez, ao contrário de nós, gosta do EI.

Também não gostamos do Presidente Assad da Síria e apoiamos os rebeldes que combatem contra ele, menos os rebeldes que pertencem ao EI, que também luta contra o Presidente Assad mas de quem nós não gostamos.

Também não gostamos do Irão mas o Irão gosta do Iraque (de quem também gostamos) e combatem o EI (de quem também não gostamos). Portanto, alguns amigos nossos apoiam alguns dos nossos inimigos e alguns dos seus inimigos são amigos dos amigos pelos quais nós combatemos. Há outros inimigos nossos que lutam contra outros inimigos nossos que nós gostaríamos que perdessem mas, ao mesmo tempo, não gostaríamos que os outros ganhassem porque não gostamos deles.»

A coisa continuava ainda por um pouco mais.

A piada ilustra muito bem o imbróglio em que os Estados Unidos estão envolvidos e que começou, de acordo com a tal «explicação», quando invadiram um país para combater terroristas que não estavam lá e só chegaram depois da invasão.

Há dois dias, os EUA anunciaram a primeira baixa entre os seus soldados na ofensiva contra Mossul, a Ninive bíblica, situada numa zona de antiquíssima influência sunita.

No último debate com Trump, na campanha presidencial americana, Hillary Clinton voltos a assegurar que não haveria «tropas no terreno» após a retirada dos combatentes do DAESH.

Os EUA apoiam a ofensiva com meios aéreos consideráveis e forças especiais, compostas de especialistas em guerra não-covencional.

Mas as na operação, teoricamente a cargo do governo iraquiano, participam, além do exército «desbaathificado» e, portanto, dominado por shiitas, milícias shiitas armadas e treinadas pelo Irão e «voluntários» iranianos, kurdos, todos sunitas mas de obediências políticas diversas e tradicionalmente inimigas, tudo perante o olhar preocupado e atento do vizinho exército turco, implacável inimigo de, pelo menos, uma das facções kurdas e que não esconde a sua antiga obsessão de «controlar» toda aquela zona, rica em petróleo, e estabelecer uma «zona tampão» para evitar incursões kurdas no seu território. Ainda há poucos dias, Erdogan lembrava que, historicamente, Mossul pertencia ao estado otomano e recusava ser excluído de qualquer solução que venha a ser encontrada depois da muito previsível derrota e expulsão do EI.

A revista «Foreign Affairs» resume os cenários de pesadelo que a ofensiva em curso pode desencadear:

A fuga de grande parte dos cerca de milhão e meio de habitantes.

A sabotagem pelo EI em retirada das (sete) pontes sobre o rio Tigre e dos sistemas de electricidade e abastecimento de água, criando uma catástrofe humanitária de proporções inimagináveis.

A alta probabilidade de confrontos entre as forças do exército iraquiano – que, tal como Washington, tem insistido que as milícias shiitas ou kurdas não serão autorizadas a instalar-se na cidade conquistada – e os combatentes locais anti-EI mas que, até há bem pouco tempo, combatiam ferozmente, e com êxito, o dito exército iraquiano.

A eventualidade de haver tentativas de forças kurdas, turcas e das milícias shiitas pura e simplesmente não aceitarem ser postas de parte e decidirem entrar na cidade à força, opondo-se ao policiamento iraco-americano.

Mas, sobretudo, o perigo maior virá da reacção do próprio DAESH, ao ver-se derrotado em Mossul, primeiro sinal real de que é possível e pode ser rápido privá-lo de território, pondo fim à ilusão distópica do califado e remetendo-o para a competitiva galáxia dos grupos jihadistas, sem nada que realmente o distinga deles.

E que farão as centenas, talvez milhares dos «jovens europeus radicalizados» que convergiram para a Síria e o Iraque, se se virem «desamparados»? Regressarão a casa?

E os outros milhares de «jovens europeus radicalizados» que (ainda) não chegaram a partir?

Evidentemente, a derrota militar dos «loucos de Allah» é absolutamente necessária. Ela nunca seria conseguida sem correr riscos elevadíssimos que sempre serão, sub specie aeternitatis, como diria Espinoza, menores do que os que a sua sobrevivência implicaria.

Não se trata, portanto, de discordar da operação.

Mas o que se avizinha pode ser apocalíptico.

E Alepo ali tão perto!

22/10/16

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